Sobre a Web Summit

"Nos primórdios do século XXI, o trem do progresso está novamente a sair da estação - e este será provavelmente o último comboio a deixar a estação chamada Homo sapiens. ... Para nele ter lugar, é preciso entender a tecnologia do século XXI e em particular os poderes da biotecnologia e dos algoritmos computacionais." Yuval Harari

Homo Deus - a Brief History of Tomorrow

Terminou mais uma Web Summit em Lisboa. Directamente, pouco tocou no grosso da população portuguesa e nas suas vidas imediatas. Mas daí a desvalorizar-se a sua importância vai um grande passo em falso.

De facto, trata-se de uma feira. Mas, desde logo, que outra feira ou evento traz a Portugal 50 a 60 mil visitantes de 166 países (dados de 2016)? Provavelmente, só um evento futebolístico topo de gama, como foi o Euro 2004. E daí resulta, pelo menos, um impacto económico, imediato e não negligenciável, na actividade turística (o que, indirectamente, também nos poupa a alguns aumentos de impostos...). Além disso, não se trata de "turistas" quaisquer. Inclui líderes de opinião mundiais e líderes, ou futuros líderes, de actividades que comandam a transformação do mundo e, como tal, são definidores de tendências, tendo as suas opiniões um grande efeito de propagação.

O efeito multiplicativo na reputação externa do país e na promoção da sua imagem é, certamente, muito maior do que o de outros "turistas quaisquer". Quando as imagens usadas no lançamento do iPhone 8 da Apple foram de Lisboa, julgo que ninguém terá dúvidas sobre o valor promocional (mesmo medido monetariamente) que esse facto terá tido para Portugal.

A feira não será o local onde se realizam grandes negócios, nem será o gatilho para um influxo de investimentos em Portugal, pois não é esse o seu fito. Mas o facto de permitir o encontro entre investidores, dispostos a apostar em ideias com potencial de negócio, e empreendedores, com ideias que precisam de dinheiro para se concretizar, é uma oportunidade muito importante para a conversão de sonhos em realidades económicas. Poucos terão sucesso, mas todos ganham por ousar. Por isso, a abertura de vias de comunicação proporcionada pela troca de cartões-de-visita entre quem, de outra forma, não teria oportunidade de se encontrar é, provavelmente, um dos maiores valores do evento. E que jovens criadores portugueses tenham essa oportunidade à porta é muito valioso.

Por outro lado, esta feira tem que ver com actividades que estão, e vão continuar aceleradamente, a transformar o mundo em que temos vivido, com consequências profundas nos modos de vida e, quem sabe, na própria existência humana. Há já especulações sobre esse futuro, que envolvem a criação de como que uma espécie de super-homens biónicos - humanos entrelaçados com tecnologia -, com duração potencialmente ilimitada e com um profundo manancial de conhecimento em actualização permanente, à qual se subordinaria a actual espécie humana, limitada nas suas capacidades.

Menos especulativa, porém, é já a realidade com que nos confrontamos hoje em dia. Ainda não há muito tempo, um jornal estrangeiro titulava que, num banco internacional, "um software faz em segundos o que demorava 360 mil horas a ser feito por juristas". E há já firmas de advogados nos EUA a substituir advogados por soluções de inteligência artificial. E o mesmo vai acontecer a médicos, financeiros, professores, arquitectos, etc., profissões que se consideravam, até aqui, imunes ao ataque das máquinas. Do mesmo modo que as pessoas cada vez mais alimentam o poder dos algoritmos vão acabar a decidir das suas vidas, a ponto de o Facebook, por exemplo, já conhecer os seus utilizadores e ser capaz de prever o seu comportamento melhor do que os amigos ou a família.

Nesse sentido, termos a oportunidade de ser directamente confrontados com manifestações dessa realidade transformacional deveria ser aproveitado para nos interpelarmos sobre o desafio que essas transformações nos colocam e melhor nos prepararmos para lhes responder e delas podermos beneficiar. Em lugar de sobre tal oportunidade despejarmos a sobranceria intelectual de quem, perante um dedo que aponta um desafio, se regozija a discutir a forma do dedo.

Foi demasiada, e provinciana, a atenção mediática dedicada ao evento? Mas medida contra quê? Contra os assuntos que nos últimos dias têm enchido horas televisivas, páginas de jornais e bytes de redes sociais, como sejam as impropriedades do comportamento pessoal do Sr. Kevin Spacey, que vive na América, a anacrónica fundamentação de uma sentença judicial sobre a vida de duas pessoas, uma cena de violência que, grave em si mesma, não tem relevância social significativa, só para citar alguns exemplos. Sem mencionar as omnipresentes angústias do futebol, como se à volta delas girassem as nossas vidas? É isso mais relevante para a vida das pessoas e o seu futuro do que o objecto da Web Summit? Então, talvez sejamos mesmo provincianos.

O foco mediático, e a manipulação do seu zoom valorativo, distorce frequentemente a perspectiva do mundo e da vida, subvertendo a escala da importância que os acontecimentos têm para a vida das pessoas, e acabando por subverter com isso as prioridades da própria política.

Seria bom, pois, que aproveitássemos esta oportunidade para sair do paroquialismo temático e nos debruçarmos, por exemplo, sobre a interpelação deixada pelo historiador Yuval Harari: "O que acontecerá à sociedade, à política, e à vida diária, quando algoritmos não conscientes, mas altamente inteligentes, nos conhecerem melhor do que nos conhecemos a nós próprios?"

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Exclusivos