Uma estranha festa de aniversário

A doutrina militar moderna aprendeu muito com as operações no Afeganistão, no Iraque e mesmo, há vinte anos atrás, nos Balcãs. Uma das novas exigências tem que ver com o impacto estratégico de cada uma das acções tácticas levadas a cabo no terreno. Passou a ser conhecida como a teoria do "Primeiro-Cabo Estratégico". O nosso Cabo, que comanda quatro ou cinco soldados apenas, tem que manter um olho no inimigo e outro nas consequências mais gerais que cada tiro possa acarretar. Tem que prestar atenção, em simultâneo, ao pormenor e ao contexto.

Os líderes políticos da Aliança Atlântica, reunidos em Londres, para celebrar os 70 anos da organização, não estiveram ao nível desse Primeiro-Cabo moderno. Provavelmente, nem sabem para que serve um Primeiro-Cabo, como, aliás, pouco ou nada entendem de questões militares. Tem sido esse um dos problemas que a NATO tem enfrentado nas duas últimas décadas. Os dirigentes políticos formaram-se em círculos alheios às questões de defesa, não possuem essa sensibilidade e, por isso, não têm sido capazes de definir a direcção estratégica que a NATO precisa de seguir.

Dito de outra maneira, tem havido um défice de orientação política, uma incapacidade de enquadrar politicamente as questões da paz e da guerra, quer ao nível dos governos nacionais, quer quando os dirigentes se sentam à volta da mesma mesa. Isto significa que agenda de defesa tem sido marginalizada, abandonada nas nuvens da indefinição. Ou então, é deixada nas mãos dos generais, que acabam por dar uma resposta militar a uma problemática que é multidimensional e que cabe aos políticos tratar.

Em Londres, voltou a sentir-se a mesma incapacidade. Faltou visão política e uma linha estratégica clara. O que primou foram as divergências e as rivalidades entre os principais protagonistas - Donald Trump, Emmanuel Macron e Recep Tayyip Erdoğan - , as querelas de contabilidade, a auto-satisfação, o convencimento de que somos os melhores e umas coisas vagas sobre a Rússia e a China.

A referência à China é, em grande medida, uma novidade. A inspiração parece provir de Washington, onde os pesadelos sobre a China estragam muito sono. É verdade que a política dos dirigentes chineses tem que ser encarada com profundidade, mas não creio que a NATO seja o quadro mais adequado para o fazer. Reduzir uma competição muito séria a uma dimensão militar não é a resposta multiforme, coerente e integrada que o relacionamento da nossa parte do mundo com a China exige. Incluir a China na declaração final dá justificação aos que pensam, em Beijing e Moscovo, que a cooperação militar entre ambos deve ser reforçada. Deste modo, em vez de dividir os adversários, estamos a dar-lhes argumentos para que se unam ainda mais contra nós.

A cereja no cimo do bolo de aniversário foi o vídeo que mostra Justin Trudeau, Emmanuel Macron e Boris Johnson numa cena de troça. Politicamente, é um erro gozar com um líder como Donald Trump. Que o leitor ou eu o façamos, nos nossos quotidianos respectivos, não causaremos grande mossa à máquina. Mas quando se trata de chefes de Estado e de governo, o risco de estragos é grande. Por outro lado, o incidente mostra um nível de superficialidade que roça a infantilidade e põe em causa a sua estatura de homens de Estado. Num momento em que a NATO precisava de ver reforçada a confiança entre os seus dirigentes, a cena cria novas antipatias e desconfianças. Este tipo de deslizes, diria o Primeiro-Cabo acima referido, são descuidos que têm um impacto de grande amplitude. Convém manter sempre um olho nas consequências, diria ele.

No final, e como de costume, varreu-se para debaixo do tapete. Ou seja, como há um problema para o qual não se concebe uma solução, criou-se um grupo de trabalho, para uma reflexão prospectiva sobre o futuro da NATO. Mais uma, diria eu. Sem esquecer que, nestas coisas, tudo depende de quem integra o grupo. Esperemos, então, pelos nomes e pelos termos de referência que deverão balizar essa reflexão. Depois, se dirá.

Ao empurrar o problema para a frente, ficaram sem resposta algumas questões fundamentais. Quais são as ameaças externas fundamentais, que possam pôr em causa o nosso modo de vida? Que papel deverá desempenhar a NATO e os outros instrumentos de poder, na resposta a essas ameaças? Como fazer a ponte entre as ameaças externas e as internas? Como reconciliar interesses geopolíticos diferentes, no seio de uma aliança comum? Quais são as mensagens na área da defesa que devem ser partilhadas com a opinião pública dos Estados membros, de modo a ganhar-se um apoio que actualmente é bastante frouxo?

Alguém reduzia tudo isto a uma questão muito simples: quem é o inimigo? Tenho receio que a resposta possa ter mais que ver com a nossa falta de clareza do que com os intentos vindos de fora. Mas não façamos a pergunta agora, para não estragar a festa.

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