Díli, 30 de agosto de 1999

O dia começou cedo. Eram umas quatro da manhã quando saímos da casa da família timorense onde estávamos alojados - eu, que estava em Timor pelo Diário Digital, jornal online que tinha então pouco mais de um mês de vida, e o Albano Matos, veterano repórter do Diário de Notícias, falecido em 2015, uma asa protetora para esta recém jornalista, então com 23 anos. É do Albano a primeira memória que tenho desta viagem. Estávamos no aeroporto e, pela primeira vez, caiu-me a ficha: "Vou para Timor, vou mesmo para Timor". Deve ter-se notado. "Estás com medo?", perguntou o Albano. Sorri-lhe, sem responder. Respondeu ele: "Não faz mal".

Na noite que antecedeu o referendo tinham-se ouvido tiros pela cidade o o que estava para vir nas horas seguintes era uma verdadeira incógnita. Os sinais dos últimos dias não eram bons - no domingo anterior (a votação foi numa terça-feira) um membro de uma milícia pró integração tinha sido morto em Becora, um bairro fortemente independentista da capital, e sucediam-se os rumores de possíveis/prováveis/iminentes retaliações das milícias pró Indonésia.

Quando chegámos às primeiras mesas de voto, ainda as urnas estavam longe de abrir e já havia centenas e centenas de pessoas nas filas para votar. A apreensão dos últimos dias dera lugar a uma impressionante calma. É a imagem mais presente que tenho daquele dia: pessoas a sorrir. Como se as preocupações de ontem estivessem adormecidas e as de amanhã ainda não encontrassem espaço para existir. Elas estavam lá - muitos timorenses tinham descido das montanhas, onde se tinham refugiado, e voltariam para lá depois de votar, com receio das milícias - mas aquele não era o momento para isso. Os timorenses tinham esperado 24 anos por aquele dia, 24 anos sangrentos. Entre os mais velhos, não faltava quem dissesse que agora já podia morrer em paz. E isto era dito em português, esse poderosíssimo laço emocional que é falar a mesma língua.

Em Becora, onde dois dias antes a tensão era quase palpável, o bairro parecia outro, as pessoas pareciam outras, estava toda a gente - toda a gente - nas filas para votar. A meio da tarde, havia mesas onde já não havia ninguém. Já todos tinham votado. Os resultados - esmagadoramente pró independência - viriam a mostrar que votaram 98% dos eleitores inscritos.

Apesar de alguns incidentes esporádicos, aquela foi uma terça-feira relativamente pacífica em Diíi. Se ao início do dia os membros da UNAMET, a força das Nações Unidas designada para assegurar o referendo, desconfiavam de tanta calmaria, no final, com as urnas encerradas, também a equipa internacional era, toda ela, sorrisos.

Vinte anos passados sobre aquele 30 de agosto há pormenores que já não retenho do turbilhão daqueles dias, mas há imagens que não se apagam. Nessa noite, a família que nos alojava foi buscar uma "relíquia" que guardava há muitos anos, se a memória não me trai, julgo que enterrada: uma bandeira portuguesa. O que foi impressionante não foi tanto a bandeira, foi a solenidade com que a trouxeram e mostraram, impecavelmente dobrada, sem uma ruga. Depois, voltou a ser escondida. O referendo estava feito, as preocupações do amanhã já tinham espaço para voltar, eram muitas, e como se veio desgraçadamente a demonstrar menos de uma semana depois, tinham toda a razão de ser.

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