Tchau querida...

1 Pelo mensalão, começou a desilusão. Pelo petrolão, alastrou a corrupção. Pela Lava-Jato, percebeu-se que havia gato. Pela rua, começou a contestação. Pela justiça, apertou-se o cerco. Pelo Congresso, o princípio do fim. Pelo sim, votaram a destituição. Pelo não, os que resistem ao golpe. Pelo sim, pelo não, não há ninguém em quem confiar.

Detesto os que roubam mas assustam-me os que acusam. Desconfio dos que celebram mas só sinto piedosa compaixão pelos que choram. Não me revejo nos que acusam e sinto raiva pelos acusados. Vivo em desgosto porque não reconheço o Brasil, que é o único país do mundo que quase conheço também como o meu país. Na verdade, sinto o Brasil como se fosse meu.

Fiz, como jornalista, a primeira campanha de Lula, que era também a primeira depois da ditadura, aquela que o sindicalista perdeu para Collor. Entre esquerda e direita nunca o meu coração balançou, porque a esquerda e a direita são dois conceitos que facilmente balançam entre si no sistema partidário brasileiro.

O cúmulo desta total ausência de fronteiras ideológicas terei assistido em comícios de eleições regionais, onde candidatos do PT subiam em campanha ladeados por quem os torturava nos tempos da clandestinidade.

Mas havia uma linha que traçava uma separação mais percetível e inquestionável: a cleptocracia tinha famílias, raízes, Estados, igrejas, seitas, empresas, rostos bem conhecidos; do outro lado, as vítimas de um regime que tinha mudado politicamente mas que, no essencial, mantinha intacto o sistema de privilégios instalados.

Se a eleição de Fernando Henrique Cardoso personificou a decência, foi a afirmação de Lula que infligiu o golpe. Não o golpe à traição, mas o corte de uma história de dominação das oligarquias, de profundas injustiças e de desigualdades injustificadas. Lula era a luz, porque tinha o dom de um iluminado, um líder que restituía a esperança - e assim se transformou, sem saber ler nem escrever, ele próprio numa esperança para o mundo.

2 É isto que torna tudo ainda mais imperdoável. A tragédia brasileira é um passo atrás na história do Brasil, é um retrocesso na América Latina e um caminho que se esgota para a raça humana. Tudo farinha do mesmo saco. Não governam, governam-se. As oligarquias não lhes perdoam. Quem neles acreditou, em Lula mais do que em Dilma, menos ainda.

A presidente há muito que deixou de governar, apenas luta para se manter no cargo. Assim se vai manter, quer seja ou não seja afastada por terceiros, deveria o Partido dos Trabalhadores ganhar vergonha na cara, pedir desculpa e sair do poder pelo próprio pé. O processo de impeachment pode ser um golpe orquestrado por políticos igualmente corruptos e aproveitado pelos oportunistas de sempre. Alguém comprava um carro em segunda mão à esmagadora maioria daqueles deputados que desfilaram pelo microfone a votar pelo afastamento de Dilma?!

Na melhor das hipóteses, este será mais um exercício de autodepuração que a sociedade brasileira está a provocar no seu sistema político. Já o vi, testemunhei pessoalmente, aquele movimento que também nasceu na rua, os caras-pintadas primeiro, que não eram mais do que estudantes universitários da classe média, como agora, que levaram todos a reboque numa sequência que afastou Collor de Melo da presidência.

Na pior dos cenários, está o Brasil a dar um salto no escuro, porque não se encontra quem, com credibilidade e consistência, se chegue à frente. Michel Temer, vice de Dilma, como já tinha sido vice de Lula, um empresário do PMDB, sonso e cínico, prepara há longos meses a ascensão ao cargo. Pior do que Itamar Franco, que também foi vice-presidente que subiu automaticamente ao cargo deixado vago por Collor, mas ao menos com ele pouco tempo conviveu.

Tudo o que de mal Dilma tem, tudo o que de pior se atribui a Lula, por definição a Temer pertence. Não se pode, a não ser por canalhice ou covardia, conviver anos e anos com o dolo sem nunca o denunciar, a não ser no dia em que o dolo é descoberto, os dolosos acusados e os factos dolosamente e publicamente escrutinados.

Temos também cá disto. E desses. O rei vai nu, gritam aqueles que durante anos se sentaram na cadeira do rei. Sem nunca serem reis nem nada.

3 A questão brasileira já foi a pergunta de uma música emblemática portuguesa: e depois do adeus? E depois de Dilma? E depois da ilusão? E da desilusão? Tchau querida e agora? Sabemos o que significa o vazio que fica nas ruas por onde os protestos passaram. Os brasileiros também, porque procuraram novos heróis saídos dos protestos que eclodiram em 2013 e só viram Marina, que por acaso já existia, que por acaso era do PT e que por acaso nem conseguiu os votos necessários para uma segunda volta das eleições presidenciais.

A sociedade precisa exigir. Calar e engolir não é uma opção. E o nascimento de heróis espontâneos também não é sequer uma necessidade. Bernardo Toro, um grande pensador latino-americano, recordava a propósito desta gigantesca Operação Lava-Jato que as melhores mobilizações, as mais consequentes da história, são "fruto de sociedades verdadeiramente organizadas, que se norteiam não por um pleito instantâneo, vago, mas por uma ideia maior que domina o imaginário de grupos ou até de uma população inteira".

E dá o exemplo do Japão, que decidiu conquistar pelo mercado o que perdera na guerra: o poder dos americanos. E outra vez a Finlândia, que emparedada entre a Rússia e seus vizinhos nórdicos mais poderosos, investiu na educação e na inovação para competir globalmente.

O Brasil está sem luz e sem referências. O povo procura "aquele" que virá acabar com esta escuridão que tanto perturba. Grita mais do que age, porque sempre esperou que da política, do Estado, surja o "dono da ordem". Um ente protetor. Que por acaso existe e chama-se Exército. Tchau querida! Bye, bye Brasil. Já vimos golpes militares acontecerem em terrenos menos férteis do que este.