Obama dá e Lula lá

1 Devia estar combinado. Não é Raúl Castro que se vê na pista junto à escada do avião presidencial, mas o seu ministro dos Negócios Estrangeiros. Um MNE a receber um presidente, que não é um presidente qualquer, por isso só pode ter sido combinado. Mais de meio século de bloqueio, oitenta e oito anos desde a última visita de um presidente americano - e não poderia ser cometida tamanha desfaçatez a Barack Obama.

Havana mandou um ministro ao aeroporto internacional receber, porque de certeza absoluta o presidente americano queria ser recebido assim. Combinaram entre eles. As diplomacias construíram aquele momento, vá-lá-saber-se-porquê, mas numa viagem que demorou 88 anos a preparar não se admite um improviso daqueles.

Porque se fosse despeito, Obama não merecia ser tratado assim. Ele estava finalmente ali, aqueles passos eram os mais simbólicos de todos e o seu significado, inequívoco e libertador. Obama e Castro aceitaram construir uma ponte. Mais do que isso, concordaram interromper um dos absurdos mais longos na história das relações entre seres humanos, pelo menos desde que a Segunda Guerra Mundial terminou.

E porque é de uma nova Era que se trata. Porque é de esperança que se cobre esta visita de Obama a Cuba. Porque é tão enorme este passo, que seria demasiado mesquinho, por vingança, arrogância ou outro qualquer sentimento menor, travá-lo junto aos pés de um subalterno ministro.

Esta reaproximação representa muito para a Humanidade, mas sobretudo representa tudo para os cubanos. Uma ilha, que praticamente nada produz, sujeita a um bloqueio feroz, desumano, estúpido até no sentido que fez perpetuar a razão que o justificava. Se é que alguma vez se justificou... Obama faz história, Castro faz birra. Impossível ser tão mesquinho diante de algo tão inquestionável.

Seria o regime castrista a ripostar com idêntica dose de cretinice, a imbecilidade dos vizinhos do Norte que nestas décadas com ele lidou. Seria dar razão a Trump, que não perdeu tempo a tirar partido desta "humilhação" - e Trump não pode, por definição e em qualquer circunstância, ser um homem razoável. Seria dar trunfos desnecessários aos inimigos da reaproximação, no Congresso em Washington, do qual depende o fim do embargo.

É uma historieta num encontro histórico. É Raúl convidar Obama e não estar em casa quando ele chega. É educação a menos para ideologia a mais. É recebê-lo no dia seguinte simpático, à porta do Palácio da Revolução, como Jerónimo abraçou Marcelo no Parlamento, minutos depois de boicotar com silêncio o seu discurso de tomada de posse.

Não há esquerda nem direita, capitalismo e socialismo, bons e maus neste livro. Há pontes que se reconstroem, há um diálogo que se refaz, há dois povos que se reaproximam, há uma história de ódios, rancores e morte que se reescreve - e isto não é pouco. Principalmente num mundo em que os muros se reerguem, os medos são resgatados, as fronteiras refeitas, a desconfiança reinstalada.

Os homens que ficaram na história ficaram-no por momentos decisivos, por avançar quando era normal recuar, por dizer o que ninguém queria ouvir. Obama teve nesta semana um destes momentos, tão fortes e tão simbólicos como, por exemplo, foi aquela imagem de Kohl e Mitterrand de mãos dadas num cemitério ou a famosa frase de Kennedy em Berlim, cidade dividida, cidade ocupada.

A ausência do presidente cubano não pode ter a força de uma metáfora. Só pode ter sido combinado. Só pode ter sido um gesto generoso, de uma tamanha grandiosidade. Afinal, Castro queria ver Barack sozinho a brilhar...

2 Só pode ser Carnaval, só pode ser um samba, uma novela da Globo. Só pode ser um clone. Se não for uma brincadeira, se não for um enredo, se não for ficção, se for mesmo aquilo que parece, então só falta descobrir que Obama apoia Trump e o Papa foi pedófilo.

Lula nunca foi santo, foi uma luz. Lula nunca foi um exemplo, foi inspirador. Lula era desconcertante e provavelmente bêbado. Lula era feio, baixinho e gordo. E falava um português defeituoso - ele próprio tinha um defeito na fala. Mas quando falava todos se calavam. Lula tinha um íman, chamam-lhe carisma, um dom natural, magnético.

Percebia perfeitamente as razões pelas quais a classe média alta paulista e carioca não o suportavam. Ela, que é insuportavelmente elitista, como podia admitir que um homem daqueles, que nem figura para porteiro tinha, pudesse ser bem-sucedido no lugar mais elevado da República?! O facto é que Lula foi um grande presidente. E, pude pessoalmente testemunhar, "enchia" uma sala, vergava-a diante daquela autenticidade vibrante, plateias que bebiam tudo o que dizia.

Lá e cá. E em Nova Iorque. E nas Nações Unidas, nas cimeiras do Clima, em todos os sítios em que o vi discursar percebi exatamente as razões que, por exemplo, levaram a revista Time a elegê-lo como o Homem do Ano em todo o planeta. Lula devolvia esperança aos pobres. Lula personalizava um mundo mais justo. Lula contava a história do impossível que deixou de o ser.

Vi Lula criar um partido, nas primeiras eleições livres que acompanhei. Vi Lula criar um país, encurtando as distâncias entre a minoria próspera e um povo que passou a comprar coisas e a acreditar que podia ser gente. Lula lá, nasce uma estrela - era assim o hino dessa campanha, que perdeu para Collor, que depois voltou a perdeu mais duas vezes, até lá chegar. "Lá" era o Planalto. E, nessa época, nunca a sede da presidência teve um nome tão apropriado.

O Brasil subiu, puxado pela China, mas subiu, o mundo estava a ficar menos desigual e Lula era o rosto disso. O pico que virava planalto. Era estrutural. Era para ficar. Era mentira. Não sei se roubou. Não sei se traficou. Não sei se corrompeu. Sei que morreu, sei que é outro: sei que foge, quando deveria enfrentar; sei que se acobarda, quando esperávamos que lutasse; sei que é ministro, quando deveria estar preso; sei que depende de um país dividido, o mesmo que sempre quis unir; sei que pensa apenas em si mesmo e na sua pele, quando a generosidade de uma vida foi exatamente dedicar a vida a lutar pelos outros.

O que Obama dá, Lula lá nos tirou: a fé na raça humana.

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