Enfiar o Barreto

Caro António, não é uma carta aberta, podia até escrever tudo na terceira pessoa. Mas a nossa proximidade, que presumo existir, a admiração profunda que lhe tenho, até mesmo o carinho que a sua figura me inspira, enfim, por não sermos propriamente estranhos, levaram-me a esta fórmula. De discurso direto, como se fosse uma conversa, e quem lê como nos pudesse ouvir.

Só não lhe chamo monólogo porque, de certa forma, você já falou comigo. E fê-lo através da mesma forma, em público, aqui no DN, no espaço de opinião, onde no domingo passado dedicou o seu texto semanal "às notícias de televisão".

Será a primeira vez que nos cruzamos no espaço mediático. Já tive a sorte de ter acontecido noutros sítios. Na universidade, por exemplo, onde por convite do reitor de Trás-os-Montes e Alto Douro participámos ativamente em reuniões muito estimulantes do Conselho Geral da UTAD. Também no chamado Terceiro Setor fomos contemporâneos, coincidimos na liderança de duas das mais relevantes fundações corporativas do país - você na fundação da família Soares dos Santos, eu na Fundação EDP.

Talvez não saiba das minhas novas funções, embora não as esconda, nem quando assino esta coluna regular de opinião. Assumo-o porque não tenho essa presunção nem acho sequer que seja determinante para esta nossa "conversa". Como elas não são, apesar de tudo, assim tão recentes, como dirijo a informação da TVI já lá vão quase 21 meses consecutivos, tenho evidentemente de vestir a pele daqueles que você critica - e não exagero se até disser "aqueles que insulta".

Porque o retrato-robô que faz aos jornalistas de televisão, sobretudo a quem os dirige, são mais do que duras observações. Banalidade, boçalidade, preguiça, estupidez, falta de cultura e inteligência, submissão ao poder - adjetivos não lhe faltam para determinar o carácter deste bando, onde "não há quem estude nem quem pense", e que formam uma redação televisiva.

Não reajo para lhe devolver epítetos. A si ou, para manter o seu registo, aos grupos que o compreendem. Tudo o que sobre eles dissesse iria, como é evidente, atingi-lo a si mesmo. Por isso fujo às generalizações que poderiam salpicar o seu nome com lama, não vou cair na ratoeira de considerar que "os sociólogos são parasitas e inúteis", que "os académicos são inconsequentes e improdutivos", que há ex-ministros que deixaram reformas a meio e isso os torna "nuns cobardes desistentes" ou até que "só adidos dos partidos vão parar às fundações que as empresas inventam". Para si, era justo. Para mim, seria estúpido.

Como lhe digo, prezo-o incondicionalmente, considero-o como a poucos faço. A sua honestidade inspira-me desde miúdo. A sua independência é tão rara como rica. O seu estilo contundente, e a coragem de não fugir às palavras, é vital neste país de meias-tintas e de consensos falsos e fúteis. Revejo-me no seu exemplo, por isso aquilo que pensa e diz, como me poderia ser indiferente?!!

Assim reajo. Quem não sente, consente - já diz o aforismo popular. E, sim, quando alguém com o estatuto de António Barreto escreve sobre notícias de televisão, é claro que enfio o barrete.

A reação mais primária seria negar, contrariar, explorar contradições, desmontar críticas infundadas, defeitos que foram corrigidos, chocar opinião contra opinião, mas nem a isso me atrevo. Ser básico contra a inteligência não é um exercício de confronto, é um suicídio público.

A defesa da honra é coisa que também não me apetece. E tenho a clarividência suficiente para, em caso de duelo, perceber que partia em desvantagem neste tribunal da "opinião pública". Os mesmos que lhe dariam razão, e adoram este tipo de linchamentos públicos, seriam os primeiros a mudar de canal se, porventura, qualquer televisão fizesse sequer metade do que você sugere.

Cerro os dentes, mordo os lábios e não lhe digo logo o que me vem à cabeça. Começo assim por reconhecer a razão que tem quando nota que "os alinhamentos são idênticos de canal para canal", quando lamenta que "as questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim". Também posso admitir a discussão sobre a pertinência dos "diretos excitantes sem matéria de excitação".

E aceito que é excessiva a cobertura que fazemos do "país formal", há mais política que é vista em função dos partidos (e não de quem se abstém), que a economia não é essencialmente dos ministros que a tutelam, que o trabalho é sindicatos, que os problemas de saúde e de educação não são necessariamente aquilo que faz mover as associações representantes dos profissionais do setor.

Ouço e leio com atenção o que diz e escreve, mas não entendo como não resistiu à tentação da pancada indiscriminada. Não lhe conhecia, se calhar porque nunca tinha sido eu o seu alvo, esta faceta simplista, de falar para a plateia sem explicar, de ceder a análise do fenómeno à conquista da ovação fácil.

Você, António Barreto, toca em pontos que merecem uma profunda reflexão - embora nem as pistas destas se vislumbrem do seu texto superficial e simplista. Como não o fez por escrito, convido-o desde já a vir até à redação da TVI, passar cá o dia e partilhar as suas ideias com os editores, aprofundar as suas críticas aos jornalistas, conhecer por dentro este "reino da preguiça e da estupidez", como lhe chama.

Três milhões de portugueses, diariamente, assistem aos principais serviços de notícias das televisões portuguesas. São eles também por si insultados. Bem sei, já o admitiu em público, que lamenta não ter emigrado. Talvez a gente o admire mas não o mereça. Nós e a maioria dos telespectadores que, desde 2012, dão a esta estação a liderança ininterrupta da informação. É esta equipa da TVI, tecnicamente, a sua primeira prioridade. Não estamos humildemente à sua altura. Mas peço-lhe que não desista de nós. Venha até cá e evite que a gente embruteça de vez.

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