É a política, estúpido!

Luís Montenegro, Hugo Lopes Soares, Carlos Abreu Amorim, Miguel Santos, Amadeu Albergaria, Adão Silva, Luís Leite Ramos, Miguel Morgado, Berta Cabral, António Leitão Amaro, Sérgio Azevedo e Nuno Serra - são estes, em princípio, os nomes dos deputados que escreveram um texto de extrema violência, no domingo passado, a que chamaram de "resposta ao diretor de informação da TVI". Escrevo em princípio porque, apesar de se terem recusado a assumir nominalmente a carta dirigida ao DN, nem me passa pela cabeça que, pelo conteúdo e sobretudo pela forma, aquela prosa não seja subscrita por todos e cada um daqueles que compõem a direção do Grupo Parlamentar do PSD.

Pois é formalmente através do órgão deste partido que são escritas pérolas como "o Dr. Sérgio Figueiredo pode continuar a defender os seus amigos do governo"; ou "pode envergonhar o jornalismo português", atribuindo-me uma "parcialidade evidente que já nem se preocupa em suavizar"; e, além da "falta de idoneidade" que me é apontada, a direção parlamentar social-democrata acha que insisto "em embaraçar a estação de televisão" que dirijo.

Uma pequena parte do PSD, deste PSD, anda, como se vê, à procura de inimigos. E vê-os por toda a parte. É cínico. É cíclico. Já aconteceu com outros partidos, normalmente quando estão no poder, mas a coisa também pode dar-se na oposição. Estamos habituados - "quem bate no PS, leva!", lembram-se? Pois o que não é tolerável, aquilo para o que nunca me preparei foi para a má educação.

Mas o que provocou a ira desta dúzia de deputados? Foi um artigo que aqui escrevi, com a frontalidade que sempre procurei, sobre a cadeia de responsabilidades que, nos últimos anos, colocou praticamente todos os bancos portugueses à beira do precipício. Só por isso, porque suscitou uma reação tão inusitada, fica aqui a referência (http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/sergio-figueiredo/interior/vamos-falar-de-responsabilidades-5305533.html). Para que cada um tire as suas próprias ilações.

Sei que é uma crítica forte, posso até reconhecer demasiado forte para um país em que a opinião publicada é geralmente mais insonsa do que a própria opinião pública. Não é defeito nem virtude, apenas o meu estilo, que aqui fiz neste espaço há uma semana, mas que frequentemente assinei em quase vinte anos de editoriais como diretor do Diário Económico e do Negócios ou em colunas de opinião no Público, na revista Sábado, no Correio da Manhã e agora no DN.

Não foi, sempre me obriguei a que não fosse, um ataque ad nominem. Recuso-me a julgar caracteres. Tenho procurado respeitar a fronteira que, claramente, separa o julgamento das políticas e das decisões tomadas do julgamento dos homens e das mulheres que as tomam. Nos negócios e na política.

Sobre más decisões, quando assim as avalio e assim penso, não me doem as mãos, não me esquivo, dou a cara por aquilo que sou. Aprendi, como já disse, a sujeitar-me à reação de quem era visado e evidentemente não gostava. Sobre as pessoas, simpatize ou antipatize, goste ou não goste, evito, fujo, tenho o maior dos cuidados em não injuriar, ofender e muito menos condenar quem quer que seja.

Não somos padres, não somos juízes ou polícias. Mas têm os jornalistas uma função, a obrigação até de vigilância e da denúncia de práticas que, mesmo com este controlo, já muito lesaram o bem comum e têm maltratado a nossa jovem Democracia.

Mas há quem saia do seu papel. Faça insinuações que contrariam as conclusões da Comissão Parlamentar de Inquérito que me chamou - "tudo indica que o diretor de informação da TVI é o responsável por uma notícia falsa que precipitou o fim do Banif". E, entre outras incontidas vontades e maldades, atribui à Entidade Reguladora para a Comunicação Social uma deliberação que não existe - o que existe é um projeto de deliberação, que foi contestado pela TVI e até à data não se conhece um desfecho.

A "tomada de posição do Grupo Parlamentar", como eles a designam, é um chorrilho de ataques pessoais, um desfile de ódios vindo de quem exige respeito pelas instituições, mas que não se dá, eles próprios, ao respeito por si mesmo. É uma ofensa sem memória e sem história. E, sinceramente, sem motivos que a justifiquem. É a vida! E quem reage desta maneira não pode estar feliz com a que tem.

Por lapso, a crónica de Sérgio Figueiredo não foi publicada na íntegra na edição desta terça-feira. Pelo facto, o DN pede sinceras desculpas ao autor e aos leitores.

Crónica atualizada às 11:30 com três parágrafos finais do texto

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