A OPA que não podia ter sido noticiada

1. Já tínhamos um forte indício de que, nesse dia, uma certa operação seria tornada pública e o seu anúncio provocaria um pequeno terramoto no mercado de capitais. Havia certezas, conhecíamos por exemplo os grupos empresariais envolvidos - mas outras coisas, algumas essenciais, estavam ainda nebulosas. Corrida contra o tempo, o facto seria com toda a certeza divulgado nas horas seguintes. Repito: sabíamos o que estava em causa, da sua dimensão absolutamente invulgar, mas sem a segurança necessária não havia notícia.

A conversa decisiva, o telefonema que acrescentava dados essenciais mas sobretudo dava a garantia de que a informação era fidedigna só aconteceu no fim da tarde, já a bolsa tinha fechado. Limitei-me a fazer só mais um telefonema: "Quem fala?", reagiu com o habitual tom maldisposto, dando o sinal de que iria despachar-me em três tempos. Belmiro de Azevedo ainda quis desconversar: "Está a ligar-me de um 96 e queria que o atendesse?"

Ele era realmente o dono da Optimus (o operador 93). E eu cliente da TMN (que operava com o prefixo 96) - "mas é por isso mesmo, porque o 96 vai ser seu, é precisamente por isso que me atendeu o telefone, mesmo sem saber quem era". Devo-o ter gelado, uma vez que o maior empresário português ficou calado, antevendo porque lhe estava a telefonar.

A OPA da Sonaecom sobre a gigante PT ia ser lançada e, com ela, Belmiro e o seu filho Paulo davam o passo mais audacioso do capitalismo português: "Ligue-me quando Nova Iorque fechar e depois conversamos." E mais não disse.

2. Os telejornais da noite estavam prestes a começar. Liguei a José Alberto Carvalho, então diretor da RTP, e expliquei-lhe que tinha uma "bomba" entre mãos. Precisava de uma televisão para dar à notícia a amplitude que ela justificava - e combinei o seguinte: o Jornal de Negócios divulgava, em primeira mão, Sonae lança OPA à PT, cinco minutos antes de o Telejornal começar e a RTP.

Velhas cumplicidades? Sim, mas aqui contava apenas o mútuo interesse: com acesso antecipado aos factos apurados pelo Negócios, a RTP batia a concorrência (ironia da história...), citando o site do jornal que então dirigia. Por outro lado, não restariam assim dúvidas a quem pertencia aquele exclusivo.

Com a notícia a ser difundida por todo o lado, já o Wall Street Journal citava o Jornal de Negócios de Portugal, Belmiro falou efetivamente mais tarde comigo e, sem sucesso, tentou "sacar" a origem da notícia.

On the record, pedi-lhe que aceitasse dizer algo além das breves considerações que, "em off", já tinha feito sobre aquele seu gigantesco passo e risco. Acabou por me dar a frase que fez a manchete na edição impressa do dia seguinte: "É o negócio da minha vida!" Não foi. Mas, entre as milhares que já havia dado, aquela seria uma notícia que marcaria a minha.

3. Recordo Belmiro a propósito do Banif. Recupero uma história com cerca de uma década, e abro o baú das telecomunicações, por causa da banca nos dias de hoje. Revelo esta conversa por respeito a quem a então manteve comigo - e em revolta com a hipocrisia daqueles que hoje abrem a boca para simular espanto, como se antes nunca tivesse sido igual ao que é agora.

A OPA da Sonae à PT foi noticiada sem uma fonte documental. São dezenas, provavelmente centenas as situações que, tal como esta, tive de gerir em mais de vinte anos de profissão. Pelo menos três dos atuais cinco membros do conselho da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social, porque foram jornalistas, sabem perfeitamente do que falo. Jornalistas de política, foi assim que procederam a vida inteira, dar notícias sem rosto, porque na política à portuguesa é frequente a informação perder a face.

Admito que quem nunca fez uma notícia na vida não entenda isto: o bom jornalismo não cultiva as fontes anónimas, mas também não as dispensa. Nem sempre é possível traçar a régua e esquadro o processo de construção de uma notícia. E a base da investigação assenta em documentos mas sobretudo na confiança - quando aqueles não existem, apenas esta fica para mediar a relação entre as fontes e as notícias. Dito de outra forma, a confiança é o único elemento mediador entre a ética e o mercado. Com ou sem papéis à frente.

Foi assim com a administração da PT, que reagiu àquela notícia como se nada soubesse - porque, de facto, de nada sabia. O próprio dono da Sonae queria saber quem era a fonte, sinal de que não tinha sido ele. Alguém foi. Ou vários alguéns, de origens diferentes. Insisto: tudo oral. Tudo normal. Ou talvez não, à luz da doutrina vigente.

4. Imaginam, seguramente, que não foi por delírio que, antes de todos, noticiei que Barroso tinha anunciado a Sampaio a sua fuga para Bruxelas; tal como assegurei aquilo que o país nem equacionava, a indigitação de Santana Lopes para a chefia do governo; ou, meses depois, voltei a antecipar aquilo que o presidente iria anunciar - a dissolução da Assembleia da República e a convocação de eleições que recolocavam o PS no poder.

Alguém acredita que havia papéis a sustentar todas estas notícias? Ou que arriscaria isto sem ter a certeza do que iria acontecer? E que, como na OPA de Belmiro, como nas notícias que o jornalismo português produz diariamente, sem a segurança nas fontes anónimas, na base da informação, alguma vez ela conheceria a luz do dia?

Não quero exibir galões, apenas falar do que sei, porque foi comigo que estas situações se passaram. Como milhares de milhões de notícias, em toda a parte, mesmo nas circunstâncias mais delicadas, daquelas que afetam a vida das pessoas. Terá Helena Garrido ligado a Sócrates, quando noticiou no Negócios que Portugal iria pedir resgate externo? Era a notícia da década, um transtorno para todos nós, terá confirmado antes com o FMI ou com a Comissão?!

Não me recordo, sinceramente, de ver a regulação e a política tão concertadas e indignadas com a suposta falha de "contacto prévio" da TVI com as "partes atendíveis", como deputados e ERC estão agora a fazer no caso Banif. Como ninguém aqui é burro, bem talvez só um seja mais limitado, só me pode indignar toda esta indignação.

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