O adeus pouco sentimental de Cristiano Ronaldo

Existem uns poucos jogadores que são filhos do seu tempo, mas que transcendem esse mesmo tempo. Um deles é Cristiano Ronaldo, avançado implacável, goleador sem limites e personagem discutida que agora se despede do Real Madrid para jogar na Juventus. Como sempre acontece com os futebolistas míticos, e Cristiano está absolutamente consciente de que é um mito vivo do futebol, não existe nada mais difícil do que encerrar a carreira com precisão e elegância. É raro um jogador aceitar o seu declínio e não é fácil encontrar um clube que carregue o peso da decadência.

Durante o mandato de Florentino Pérez (2000/2006, 2009/2018), o Real Madrid tornou-se o clube menos sentimental do Mundo. Apenas uma grande estrela, Zinedine Zidane, deixou o clube e acabou a sua carreira no Real Madrid. Todos os outros - um grupo de jogadores fabulosos - completaram os últimos anos das suas trajetórias em outras equipas, a maioria deles irritados, outros tristes, outros desorientados, todos interrogando-se sobre as razões do desafeto final do presidente. Não entenderam algo simples: para Floretino Pérez, um dos principais empresários espanhóis, o futebol é um negócio e que ele, principal representante do clube mais importante do planeta, é mais importante do que qualquer futebolista que passe pelo Real Madrid, incluindo Cristiano Ronaldo.

Floretino Pérez acha que Cristiano Ronaldo deve mais ao Real Madrid do que o Real Madrid a Cristiano. Na sua lógica, o clube impregna aos jogadores uma aura especial. É possível que assim seja. A realidade é que é muito difícil encontrar um jogador que tenha melhorado a sua trajetória fora do Real Madrid, e isso afeta futebolistas da magnitude de Raúl, Casillas, Figo, Ronaldo, Ozil, Di María, Sneijder ou Van Nistelrooy. Uma das exceções tem sido Arjen Robben, cuja excelente carreira no Bayern Munique e na seleção holandesa não chegou para a Bola de Ouro, o tipo de recompensa que o Real Madrid garante mais do que nenhuma outra equipa no Mundo. Cristiano Ronaldo sabe disso: ganhou três desses troféus durante a sua etapa em Espanha.

No entanto, Florentino Pérez não pode negar que Cristiano é, junto a Alfredo Di Stéfano, o futebolista mais transcendente da história do Real Madrid. Por um lado impressiona a sua enorme contribuição goleadora, 450 golos em 438 jogos oficiais, um número e uma percentagem de golos rara no futebol. Puskas, outro monstro do futebol, terminou a sua dupla carreira (Honved e Real Madrid) com uma percentagem de 0,99% de golos por jogo. Um aspeto menos objetivo, mas de enorme importância simbólica, foi a liderança de Cristiano Ronaldo na feroz resistência ao melhor Barcelona da história. Chegou ao Real Madrid como resposta angustiada à formidável equipa construída por Pep Guardiola e, nove anos depois, deixa o clube com a satisfação do dever cumprido: Três Ligas dos Campeões, dois Ligas espanholas e duas Taças do Rei.

Tão-pouco é de desconsiderar o papel de Cristiano Ronaldo como contrapeso popular, mediático e comercial de Leo Messi, destinado a servir de farol desde Barcelona. Poucas vezes na história, ou mesmo nunca, se viu algo igual: as melhores equipas do Mundo, dirigidas pelos dois melhores futebolistas do seu tempo, na mesma liga, e num momento em que o futebol não tem rival como máxima expressão global do desporto. Cristiano Ronaldo ganhou com o seu esforço, talento e golos o direito a discutir a hierarquia de Messi. O Real Madrid aproveitou-se disso, utilizando o jogador português como principal atração comercial e futebolística.

Embora seja verdade que Cristiano Ronaldo mantém quase intacto o seu crédito futebolístico, não pode esquecer-se que tem 33 anos e que se aproxima de um declínio inevitável. Também não é fácil o momento que atravessa o Real Madrid: vários dos seus melhores jogadores - Sergio Ramos, Marcelo, Modric e Benzema - já passaram a barreira dos 30 anos. A renovação é tão necessária como a urgência em contratar um galáctico, como aconteceu na primeira passagem de Florentino pela presidência. Entre 2000 e 2004, o Real Madrid colocou-se no topo do mercado com as contratações de Figo, Zidane, Ronaldo e Beckham. A situação mudou nos últimos anos. O contrato televisivo da Premier League favorece a posição do Manchester United. A relação do Paris-Saint Germain e do Manchester City com os petrodólares do Golfo Pérsico torna-os quase invulneráveis no mercado atual, onde o Real Madrid precisa de dar um golpe de autoridade. Não é fácil. O seu modelo corporativo impede o clube de competir com as verbas dos xeques árabes.

Cristiano Ronaldo - admirado, mas não querido em Espanha - ainda é a máxima expressão do tempo atual. Funciona como um fabuloso produto futebolístico, comercial e social. É uma indústria com botas. Ele sabe e gosta disso. O seu ego é enorme. E nisso não difere de Florentino Pérez, cuja imagem discreta esconde uma vaidade esmagadora. A relação entre os dois não foi fácil, mas sempre pautada pela conveniência entre as duas partes.

Esta relação quebrou nos últimos meses. Cristiano Ronaldo, que fará 34 anos em fevereiro, pretendia auferir o dobro do seu contrato atual - 20 milhões de euros/ano, livre de impostos - e situar-se ao nível de Messi. O presidente considera que os melhores anos de Cristiano já passaram e mantém uma fé enorme e ilimitada em Gareth Bale, confiança que não é extensível à maioria dos adeptos do Real Madrid. Como sempre acontece com Florentino Pérez, finalmente surgiu o empresário que há dentro dele, um homem sem dúvidas sentimentais. Havia uma oportunidade de negócio e aproveitou-a: 100 milhões de euros para os cofres do Real Madrid e para melhorar a aproximação a Neymar, o sonho que o assombra há cinco anos.

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João Gobern

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