A França tem tudo, mas a Croácia tem Modric

O Mundial decide-se entre um favorito, a França, e uma seleção que soube esconder as suas principais armas, a Croácia, no Luzhniki, o velho estádio Lenine, um recinto de referência da antiga URSS e agora um orgulho futurista do autoritário regime de Vladmir Putin. O torneio termina sem incidentes, sem a menor notícia sobre violência, com o duro controlo de que tanto gosta o presidente russo e os dirigentes da FIFA. Também termina o futebol, sem outra grande notícia além da explosão de Mbappé como nova figura planetária. Foi um Mundial dominado pelas bolas paradas - 46% dos golos surgiram de cantos, faltas ou penáltis - e pelas duas equipas mais cumpridoras, França e Croácia.

Esta final inédita reitera a hegemonia da Europa desde o Mundial 2002. Desde então ganharam Itália, Espanha e Alemanha. Entre os últimos oito finalistas há apenas uma seleção sul-americana: a Argentina, no Mundial de 2014. A hegemonia europeia é de tal magnitude que não pode ser explicada como uma casualidade. A América do Sul alimenta-nos com estrelas de grande calibre - Messi, Neymar, Luis Suárez, Cavani, etc. -, mas é um futebol devastado pela corrupção, dificuldades económicas, debilidade dos seus campeonatos e pela emigração precoce dos seus futebolistas, os bons, os maus e os regulares. Mais uma vez o futebol europeu aproveita a sua forte estrutura económica e organizativa para manter a vantagem adquirida há alguns anos.

Como acontece frequentemente a cada 20 anos, a França tem uma grande geração de futebolistas. Foi semifinalista em 1958 com os inolvidáveis Kopa e Fontaine, reapareceu como potência no Mundial da Argentina em 1978, carregada por Michel Platini, ganhou um Mundial em 1998, com Zidane como máxima figura, e agora alcança a final com dois jogadores que proclamam a dupla alma do futebol francês: cartesiano e muscular. É uma dialética que funciona às vezes e fracassa em outras. É o país de Platini, Zidane e Griezmaan, jogadores cínicos, astutos e brilhantes. E é também a pátria de todos os Pogbas que povoaram as principais ligas europeias nos últimos 25 anos.

Quando a França escolheu a energia sem controlo, dececionou. Quando encontrou a dose justa de criatividade e potência, dominou o futebol mundial ou esteve perto de consegui-lo. Zidane encontrou Thuram, Desailly e Vieira. O leve Griezmann sentiu-se finalmente cómodo com Kanté, Matuidi e a versão mais contida de Pogba. É uma seleção poderosa e equilibrada, com dois centrais sensacionais (Varane e Umtiti), dois laterais prometedores (Pavard e Lucas) e a síntese máxima acabada da maior qualidade com a máxima potência: Killian Mbappé, a figura emergente deste Mundial.

A França tem sido imparável quando pratica o seu melhor jogo, mas é uma equipa de fases, de momentos. Sofreu quase sempre pela sua tendência em complicar depois de estar em vantagem. Isso aconteceu frente à Austrália, à Argentina - esteve a ponto de empatar a quatro golos no último minuto - e com a Bélgica. É um défice que nenhum rival conseguiu aproveitar, mas que mostra uma debilidade. No Europeu 2016, na final de Paris, Portugal aproveitou os receios dos franceses. Dois anos depois melhoraram em todos os aspetos, mas ainda transmitem uma estranha sensação de desconfiança e imaturidade.

Se há algo que sobra na Croácia é a maturidade, uma qualidade que tem sido indispensável para atravessar os sucessivos infernos que tem encontrado pelo caminho. Resolveu os três últimos jogos no desempate por grandes penalidades (Dinamarca e Rússia) ou no prolongamento, com a Inglaterra. Isso significa que chega a esta final com 90 minutos, um jogo inteiro, a mais do que a França.
A distância física, que geralmente favorece os franceses frente a todos os seus rivais, deveria multiplicar-se contra a cansada Croácia, que tem a seu favor uma vantagem: suportou tanto sofrimento que o metabolizou. Os franceses não. Apenas sofreram, e já se sabe que as finais são geralmente calvários. As três últimas, Alemanha 2006, África do Sul 2010
e Brasil 2014, precisaram de prolongamento.

Se o futebol francês tende a interrogar-se sobre a sua identidade, a Croácia não tem dúvidas. Depende do talento individual e de uma coesão mais emocional do que tática. Tem a sorte de desfrutar de um líder peculiar, o pequeno e veterano Modric, um prodígio de jogador, possivelmente o melhor médio do mundo desde a retirada de Xavi. A este futebolista de proporções históricas nunca o incluem nas listas dos melhores jogadores do ano, mas do seu tremendo talento e da capacidade da França em anulá-lo dependerá boa parte da final.

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