Que pesadelo! O Brasil sem Carnaval

Sem o Carnaval carioca, claro. Se isso acontecer, vamos nos sentar no meio da rua e chorar lágrimas de esguicho.

Platão não queria poetas em sua República. Na Hollywood de 1914, os primeiros prédios de apartamentos proibiam a entrada de cachorros e atores. Só faltava o Brasil não ter o Carnaval. O que, aliás, não se deve dizer nem de brincadeira. Mas tive esse pesadelo outro dia, daí a razão desse artigo. Que ele nos sirva de alerta. Porque, sem o Carnaval, o que seria de nós?

Não teríamos O Teu Cabelo Não Nega, Cidade Maravilhosa, Touradas em Madri, Alá-la-ô, A Jardineira, Ó Seu Oscar, Aurora, Dama das Camélias. Pirata da Perna de Pau, Amélia, Chiquita Bacana, Balzaquiana, Tomara que Chova, Saçaricando, Madureira Chorou e centenas de outros sambas e marchinhas por homens e mulheres que, de 1930 a 1970, inventaram a nossa cultura popular - Ary Barroso, Francisco Alves, Lamartine Babo, Braguinha, Carmen Miranda, Mario Reis, Benedito Lacerda, Roberto Martins, Linda Batista, Haroldo Lobo, Mirabeau, João Roberto Kelly.

Não teríamos corso, batalha de flores, banho de mar à fantasia, pierrôs, arlequins e colombinas. Nem bailes com confete, serpentina, lança-perfume, mão-boba e fantasia de árabe (sem cueca por baixo, claro).

Não teríamos os ranchos, como os lendários Ameno Resedá, Flor de Abacate e Mimosas Cravinas, nem o meu favorito, o Flor de Sereno, que faz hoje um lindo Carnaval de 1910. Nem, desde o século XIX, as grandes sociedades, como os Democráticos, os Fenianos e os Tenentes do Diabo. Nem os lendários cronistas do Carnaval, como Mauro ("Peru dos pés frios") de Almeida, Vagalume, K. Noa, K. Peta, K. Rapeta, A. Zul, Jota Efegê, Eneida, Haroldo Costa e Hermínio Bello de Carvalho, criadores de uma literatura que já tem mais de cem anos. Não teríamos blocos como o Cacique de Ramos, o Bafo da Onça e o Bloco do Eu Sozinho, com seus carnavais históricos, nem o indestrutível Bola Preta, o único a sobreviver e que, hoje, leva dois milhões de pessoas à Cinelândia no sábado de Carnaval - e a Cinelândia continua de pé!

Nem o Simpatia É Quase Amor, o Monobloco, o Que Merda é Essa?, o Céu na Terra, o Carmelitas, o Escravos da Mauá, o Spanta Neném, o Suvaco do Cristo (e seu irmão caçula da Zona Norte, o Virilha de Minhoca) e os outros 450 blocos que saem às ruas aos primeiros clarins de janeiro e arrastam a cidade até a Quarta-Feira de Cinzas ou mesmo depois. Nem a Banda de Ipanema, mãe de todas as bandas. E o baile de gala do Copacabana Palace? Pois não deixe que ele ofusque os bailes da Lapa, do Terreirão, da Praça Mauá e de outros mil bairros pobres ou remediados do Rio. Onde houver um carioca, haverá Carnaval.

Pois é - mas, e se não houvesse o Carnaval? Que pesadelo! Não teríamos o Império Serrano, o Salgueiro, a Portela, a Mangueira, a Beija-Flor, a Imperatriz e todas as demais escolas de samba, sem as quais não seria possível viver - nem a extinta, mas imortal Vizinha Faladeira, que desfila como um fantasma na imaginação deste folião. Nem Ismael Silva, Cartola, Gargalhada, Espinguela, Calça Larga, Fernando Pamplona, Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues, Joãozinho Trinta, que criaram os seus mandamentos básicos, agora recriados por Rosa Magalhães e Paulo Barros. Nem Paulo da Portela, Mano Décio, Silas de Oliveira, dona Ivone Lara, Zuzuca e Beto Sem Braço, que escreveram os seus grandes sambas. Nem Delegado e Mocinha, mestre-sala e porta-bandeira, que ensinaram ao Brasil a elegância. Como seria a cultura sem heróis?

Não teríamos os surdos de primeira, de segunda e muito menos de terceira, caixas, repiques, cuícas, tamborins, pandeiros, chocalhos, agogôs e reco-recos, que formam as baterias siderúrgicas, sem as quais o Brasil seria um túmulo. E onde estariam os designers, folcloristas, pintores, figurinistas, escultores, costureiras, chapeleiras, bordadeiras, carpinteiros, eletricistas, ferreiros, soldadores e outros artesãos que levam o ano trabalhando nas fantasias e alegorias? De onde viriam os tecidos, plumas, pedrarias, lantejoulas, miçangas, vidrilhos, isopores, madeiras e ferragens, sem os quais a escola não sai? Quem paga tudo isso? Não se sabe direito, mas tudo vai virando aos poucos realidade nos barracões das escolas e, nas noites de domingo e segunda de Carnaval, enchem os olhos do mundo com sua riqueza.

E a cerveja, que rola em quantidades oceânicas na cidade durante uma semana, vendida pelos ambulantes? E a feijoada, que bate todos os recordes de consumo - ninguém até hoje calculou as toneladas de lombo, paio, linguiça, pé, orelha e focinho consumidos no Carnaval. Ou de beijos trocados nas ruas, nos bailes, nos desfiles. Tudo é o Carnaval. Sem ele, como ficariam as TV, os anunciantes, as agências de propaganda, o comércio - pense na Casa Turuna -, os hotéis, os táxis, os pivetes?

E por que só o Rei Momo merece homenagens? Por que não também o Rei Congo, sem o qual o nosso Carnaval seria tão sem graça quanto o de Nice ou Veneza? E por que só cantar as negras e mulatas estratosféricas? Por que não também as louras, morenas e furta-cor, que sambam do mesmo jeito? Todo mundo aqui tem um pé na cozinha, inclusive as grã-finas - que nunca atravessaram o samba.

Estou falando do Carnaval carioca, claro. O Carnaval do Rio. Aquele que, desde que o Zé Pereira saiu às ruas pela primeira vez, tocando o seu bumbo, lá pelo século XVIII, só exigiu de seus praticantes uma condição: a alegria. Gente de toda parte, aos milhões, vem ao Rio todos os anos para experimentar tal alegria.

Apague do Brasil esse Carnaval e, como diria Nelson Rodrigues, vamos todos nos sentar no meio da rua e chorar lágrimas de esguicho.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros livros, Carnaval no Fogo [Tinta da China].

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