Em contexto de conflito parental, muitos pais antecipam uma possível acusação de abuso sexual em relação aos filhos e, por isso mesmo, evitam manter determinados comportamentos. Recusam-se a brincar "às cócegas", ajudar as crianças mais novas a limpar-se depois de irem à casa de banho ou, ainda, a sentar os filhos no colo. Outros pedem testemunhas na hora do banho ou de trocar a fralda ao bebé, pedem ajuda à vizinha (mesmo a meio da noite) para colocar a pomada que evite as assaduras nas zonas genitais ou trancam a porta da casa de banho, com receio de que a criança entre sem avisar. Outros ainda equacionam instalar câmaras de vigilância em casa, numa busca desesperada por provas que os ajudem a defender-se, caso sejam acusados. Estes pais, não raras vezes, enfrentaram já outras acusações prévias. De violência doméstica, maus tratos físicos ou consumo de álcool e drogas. E quando os processos de avaliação, que se sucedem uns atrás dos outros, tantas vezes ao longo de anos a fio, revelam a ausência de indicadores neste sentido, o medo das acusações de abuso sexual ganha forma. Para estes pais que, como medida preventiva, decidem inibir-se na expressão afectiva e mesmo na prestação de alguns cuidados físicos aos seus filhos, o dia-a-dia é vivido com angústia e apreensão. E se algum comportamento é mal interpretado? Até onde posso ir e o que devo ou não devo fazer para que não seja injustamente acusado? Por sua vez, estas crianças veem-se privadas de pais espontâneos e capazes de expressar os seus afectos também de um modo físico. E por mais que a verbalização dos afectos seja importante, a verdade é que as crianças (e todos nós, se pensarmos bem) também precisam de toque e proximidade física, de serem inundadas de beijos e "espremidas" de tantos abraços. Falar desta realidade não equivale, naturalmente, a ignorar uma outra - a dos abusos sexuais reais. Sabemos que o abuso sexual existe, é prevalente e tem um claro impacto negativo na criança vítima, na sua família e na comunidade em seu redor. Os adultos devem estar atentos a eventuais sinais de alerta, ainda que estes possam ser subtis, ouvir a criança e pedir ajuda às entidades competentes face a uma suspeita ou revelação. Mas as falsas acusações de abuso sexual também existem, motivadas por erros de interpretação da realidade ou desejo de vingança e retaliação em relação ao progenitor acusado que se quer, por via da acusação, banir da vida dos filhos. E, neste contexto, sujeitam-se as crianças a avaliações sucessivas (por vezes bastante intrusivas), ao mesmo tempo que as privam de um direito fundamental - o direito a poder conviver com ambos os pais, de forma salutar e descontraída.