Os adolescentes precisam bater as asas

Muitos pais protegem demasiado os seus filhos. E se a falta de supervisão é negligência, o seu excesso também o pode ser.

Uma parentalidade eficaz implica, a par com um envolvimento afectivo, a definição de regras e limites de forma clara, assegurando a protecção e a supervisão da criança ou jovem. No entanto, esta dimensão mais relacionada com o controlo tem de ser ajustada em função da idade e nível de desenvolvimento da criança e, ainda, das suas características específicas. Significa isto que, à medida que a criança cresce e a família vai passando por diferentes fases, as regras e os limites devem ser flexibilizados e ajustados a cada nova etapa.

Assim, uma criança de 4 ou 5 anos, por exemplo, precisa de maior orientação e supervisão, de modo a assegurar a sua protecção. Os pais desempenham também um importante papel enquanto modelos, devendo exemplificar comportamentos ajustados e ajudando-a, dessa forma, a interiorizar as normas e conceitos tão relevantes como o certo e o errado.

Já um adolescente, por força da idade, terá outra maturidade cognitiva, emocional, social e moral. Quer isto dizer que lhe deve ser dado maior espaço para tentar e errar, experimentar coisas novas, aventurar-se e, de forma progressiva, autonomizar-se e bater as asas.

Ora, para muitos pais este processo normativo de autonomização é sentido como uma perda ou uma ameaça. Receiam perder o amor do filho que, naturalmente, prefere estar com os amigos em detrimento dos pais. Receiam que o filho seja confrontado com situações difíceis e à sua volta apenas veem perigos e mais perigos. E por isso cortam-lhes as asas. Sufocam e protegem os filhos em demasia, mantendo-os debaixo das suas próprias asas.

O que temos então? Temos adolescentes sobreprotegidos que revelam imaturidade, dificuldade em pensar e em resolver problemas, porque os pais pensam e resolvem por eles. Revelam também dificuldade em arriscar e medo do desconhecido, retraindo-se. Outros, pelo contrário, idealizam o mundo lá fora, para além dos limites das asas dos pais. E se o retraimento e o medo podem paralisar e impedir o crescimento saudável do jovem, também a idealização pode potenciar comportamentos irreflectidos, associados a um desejo imenso de experimentar o fruto proibido... que é sempre o mais apetecido.

Precisamos de encontrar um equilíbrio nas doses de protecção que damos aos nossos filhos. Porque se em défice a criança fica negligenciada, em excesso não o fica menos. Porque só este equilíbrio permite crescer a partir de uma base segura e, ao mesmo tempo, explorar o mundo lá fora. Só este equilíbrio permite aos filhos aprenderem com os próprios erros e tentarem encontrar soluções para os seus problemas.

Diria que o grande desafio da parentalidade é saber conciliar o afecto desmedido com a capacidade em proteger sem sobreproteger. Precisam-se pais que mimem muito e que, de forma gradual, empurrem os filhos para fora do ninho. Para que não caiam, são precisos pais que ensinem a voar, e não que lhes cortem as asas.

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