Portugueses de primeira e de segunda?

Ajudas hoje são sinónimo de empregos e de riqueza do país amanhã.

Afinal, porque não chega o dinheiro das linhas de crédito da covid-19 às empresas? Mais de um mês depois, não há forma de esses empréstimos com garantias de 80% do Estado serem entregues a quem deles tanto precisa. Quanto mais tarde chegar essa verba, mais subsídios de desemprego o Estado poderá ter de vir a suportar. Despesa por despesa, que seja produtiva e com visão de futuro.

Alguns leitores poderão estar indignados e a perguntar-se por que razão precisa o setor privado de ajudas. A pergunta é legítima. A resposta é simples. Ajudas hoje são sinónimo de empregos e de riqueza do país amanhã. Quanto mais empresas conseguirem sobreviver à pandemia, mais serão os postos de trabalho assegurados e menos encargos futuros para o Estado.

O problema é que o final de abril já se aproxima a passos largos e, ouvindo as confederações setoriais, os próprios empresários e até os banqueiros, é fácil perceber que os milhões dessas linhas se transformaram em processos que continuam em processamento, envoltos em teias burocráticas e das quais têm tido muito dificuldade em libertar-se...

Se o tema do acesso aos montantes relativos à covid -19 era urgente em março, em abril já poucas palavras restam no dicionário para descrever a angústia dos privados. E desengane-se quem pensa que a angustia é só e apenas dos patrões. Não é. É, sim, de muitos trabalhadores que conhecem bem as empresas onde trabalham, ou simplesmente não trabalham agora porque não há oferta nem procura, e que há várias semanas dormem mal e têm pesadelos com o dia de amanhã ou com o dia 30 de cada mês.

Enquanto a grande preocupação do setor público é se tem ou não tem aumentos salariais, o privado luta pela sobrevivência. Mais uma vez, e como já aconteceu no passado, passa a ideia de haver duas contas e duas medidas consoante se trabalha para o Estado ou para o (maldito) patronato! Esta não é altura para cisões, divisões, costas voltadas. É altura de união. E a união entre órgãos de soberania e alguns partidos políticos não chega. É necessária equidade no tratamento - quer na saúde quer na economia - que é proporcionado aos cidadãos, até para que não renasça a perigosa ideia de que há portugueses de primeira e portugueses de segunda.

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