Legitimidade ou radicalismo?

Todo o país percebe as dificuldades e a vida dura dos motoristas de matérias perigosas. Já o disse, aqui e em comentários televisivos, que as suas reivindicações são legítimas desde a primeira hora. As suas condições laborais devem ser revistas, e sê-lo-ão certamente. O que o país começa a não perceber e a questionar é: onde é que vão parar estas reivindicações?

Os motoristas não escolheram o mês e a semana para os quais agendaram o protesto por acaso. É em agosto que todo o país se dirige para a estrada para gozar as desejadas férias, seja a norte seja a sul, e com o feriado de dia 15 há ainda mais turistas. A data escolhida faz que o impacto nos portugueses e nos próprios media seja plenamente alcançado...

Não se vislumbra diálogo nem consenso. Apesar de o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, ainda acreditar que a bom porto se chegará, os portugueses não estão assim tão otimistas, e a prova disso é que esgotaram os jerricãs em todo o país. Os cidadãos assistem e comentam um certo radicalismo que parece apoderar-se do Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas, organização que não é afeta à UGT nem à CGTP.

Hoje assistimos a posições extremadas, de uma entidade independente dos grandes sindicatos, semelhantes às que conhecemos nas greves na Autoeuropa e dos estivadores. Ontem, o Presidente da República proferiu uma afirmação que resume o atual sentimento dos portugueses: "Esta greve é contra os patrões, mas também contra o Estado e os portugueses."

Antes do fecho desta edição, cinco transportadoras anunciaram que vão dar entrada de uma providência cautelar, durante o dia de hoje, a pedir a ilegalidade do pré-aviso de greve dos motoristas e dos fundamentos desse pré-aviso de greve. Consideram que há um abuso do direito à greve e da boa-fé, que estava em curso um processo negocial, e o que está em causa é o princípio da proporcionalidade.

A ver vamos no que dá a providência, mas uma coisa é certa: a legitimidade não deveria confundir-se com radicalismo.

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