Será a poupança um luxo?

Portugal "não se pode dar ao luxo de desperdiçar poupança". A frase é do governador do Banco de Portugal e foi proferida ontem, no momento da abertura da quinta edição do Via Bolsa, uma iniciativa da Euronext.

O líder do banco central fez questão de sinalizar o momento com o tradicional toque do sino da bolsa, mas interpretando esse mesmo som como um grito de "alerta, para que este seja o ponto de partida de uma transformação". Carlos Costa não poderia estar a falar em local mais apropriado: o Museu do Dinheiro, onde decorreu o Via Bolsa.

Neste acontecimento anual, em que a Euronext chama a atenção das empresas para o mercado de capitais, como alternativa aos meios de financiamento mais tradicionais, o governador apela à necessidade de ter "uma consciência de que estamos num ponto crítico no que toca à confiança dos agentes económicos com capacidade de financiamento e que têm disponibilidade para o pôr ao serviço da economia". Restabelecer confiança é o pilar central de toda a economia, por isso a referiu e fez questão de sublinhar.

A confiança da economia assenta, em grande parte, num triângulo - que se quer virtuoso - e cujos três vértices são: banca, seguradores e mercado de capitais. Julgo que sem estes vértices alinhados não há triângulo que se equilibre e nem economia que cresça de forma sustentada e promissora.

Hoje, a sustentabilidade está comprometida por vários indicadores, nos quais se destaca a dívida, mas também por uma espécie de toxicidade que se respira no ar por efeitos do crédito malparado. Nesta matéria, as palavras do governador soaram a mais um aviso, ao dizer que se não for corrigido, significa que "o próximo ciclo de crescimento se fará através de um novo volume de crédito". Para que isso não aconteça, é necessário "reduzir o elevado nível de endividamento das empresas e investir", porque "dívida em cima de dívida, aumentando o nível de crédito, representa menor capacidade para absorver perdas".

Passando do lado das empresas para o lado das famílias, é neste plano que ganha ainda mais relevo o tema da poupança. Aliás, a falta dela! "Em Portugal, desperdiçámos 20% da poupança do PIB e vários anos de poupança sob a forma de desperdício de capital. É um problema da economia portuguesa, que não se pode dar ao luxo de desperdiçar poupança ou destruir capital", disse Carlos Costa. As famílias também não podem dar-se a esse luxo, sobretudo porque não o fazendo hoje pagarão a fatura amanhã.

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