25 de Abril começa no Spotify?

Como seria a revolução do 25 de Abril na era da internet das coisas (IoT)? Será que iríamos ouvir a música Grândola, Vila Morena passar no Spotify ou na Apple Music como uma das senhas da revolução da liberdade? (Esta foi a segunda senha, assinada e cantada por Zeca Afonso, e a primeira senha foi E depois do Adeus, de Paulo de Carvalho).

Apesar de as rádios em sinal aberto serem ainda um grande meio de divulgação da música, com o rápido desenvolvimento do mundo digital estas duas perguntas ganham fortes hipóteses de obter respostas afirmativas.

Os serviços de streaming de música ultrapassaram, pela primeira vez na história, as vendas físicas de música. Hoje, serviços como a Apple Music ou o Spotify transformaram-se na maior fonte de receitas da indústria musical, ultrapassando já as vendas reais e os downloads.

Segundo um relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, a indústria musical atingiu já o terceiro ano consecutivo de ganhos. No total, as receitas de 2017 alcançaram mais de 17 mil milhões de dólares (14 mil milhões de euros), aumentando mais de 8% face ao ano anterior. E só em 2017 a faturação em serviços de streaming representou 38% da indústria musical, em comparação com apenas 29% do ano imediatamente anterior. Estas boas notícias com números em "dó maior" nem sempre foram assim. Entre 1999 e 2014 a atividade da música caiu qualquer coisa como 40%.

Apesar do trambolhão, a paixão pela música não acabou e atualmente o streaming não é só uma moda de geeks ou de gente urbana e cool, mas chega a todos e começa a entrar em todas as regiões do mundo. A China representa já mais de um terço do negócio (35%) e a da América Latina para lá caminha (18%).

A música virou um negócio grande, muito grande e transformou-se, ano após ano, libertando-se da textura do vinil e dos CD para renascer no mundo digital e sofisticado. Não fosse isso e a Spotify não teria começado a negociar na Bolsa de Nova Iorque por 165,9 dólares por ação (135,5 euros), o que avalia a empresa em 29,55 mil milhões de dólares (24,1 mil milhões de euros); nem a Tencent Music, concorrente chinesa da Spotify, diria, como já disse, que está a preparar a entrada em bolsa, estimando uma avaliação para a empresa de 25 mil milhões de dólares (20,4 mil milhões de euros).Números grandes, gigantes mesmo, para uma indústria a que foi dada, e por várias vezes, a extrema unção (ou a unção dos enfermos, sacramento católico dedicado aos enfermos que lhes confere uma graça especial para enfrentar as dificuldades próprias de uma doença grave ou da velhice).

Haverá mais algum lado positivo nisto tudo, além dos lucros e do renascer de uma atividade tão importante para a cultura? Sim, há! Há toda uma geração que começa a perder o velho hábito de piratear música e de ouvir só o que é gratuito. Se o mesmo hábito se perdesse em relação aos jornais (incluindo os jornais online) e os consumidores/leitores passassem a pagar e a valorizar o jornalismo, em vez de apenas o exigir bom e gratuito, ganharíamos todos. Não só os jornalistas, não só os investidores em media, mas sim todo o regime, que se quer mais democrático e mais livre.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.