O desastre do Note 7, o smartphone cuja bateria explodia, atirou ao chão tanto os lucros como a reputação da Samsung no mercado dos smartphones, pelo que todas as expectativas estão agora no Galaxy S8, o topo de gama apresentado esta semana. A tecnológica sul-coreana precisa, como de pão para a boca, de um outro tipo de explosão: nas vendas..A julgar pelas primeiras informações disponíveis, o S8 tem potencial para isso. O ecrã que vai para além das margens, o corpo em alumínio, a câmara de sensor duplo e 12 megapíxeis, o carregamento sem fios, o facto de ser à prova de água e (é incrível isto agora ser algo que se destaque) uma entrada "normal" para headphones são argumentos bem convincentes..A eles juntam-se outros três fatores, um surpreendente, outro uma incógnita e um último intrigante..Primeiro, os fones que se incluem na caixa: uns AKG by Harman que, comprados em separado, teriam um preço na casa dos 100 euros. Num mundo em que quase todos os smartphones trazem de origem auscultadores que só merecem ir para o lixo, é bom ver um grande fabricante fazer o percurso inverso (os da Apple nos iPhones também não são maus de todo, mas estes escolhidos pela Samsung têm obrigação de ser superiores)..Segundo: o novo assistente digital. A resposta da Samsung à Siri, à Cortana ou ao Google Assistant chama-se Bixby e, promete o fabricante, é capaz de fazer por comandos de voz "tudo o que se faz com o toque". É uma fasquia alta, pelo que resta saber como se comporta no mundo real..Terceiro, o DeX: uma dock que se liga a um monitor e transforma o Android no coração do S8 numa espécie de PC desktop. É a resposta da Samsung ao Continuum da Microsoft, introduzido no Lumia 950 e que a HP já apresenta como solução para empresas, através do Elite X3. A aposta num sistema deste género - e o que isso significa para a empresa do Windows - é suficientemente curiosa para merecer atenção demorada..A ideia do telemóvel que se transforma em laptop ou em computador de secretária quando ligado a outros ecrãs não é de todo nova, mas a sua realização plena terá finalmente este ano condições para acontecer. Através do DeX, a Samsung põe as apps do Android a correr em janelas num ecrã grande. E com os programas do Office otimizados pela Microsoft para este sistema, muitos profissionais poderão concluir que é altura de mandar os computadores do escritório para a reforma..A gigante coreana parece assim atacar a Microsoft no seu território. É no ambiente empresarial que o Windows continua a dominar, pelo que qualquer solução que o substitua será uma ameaça à empresa de Redmond. Além disso, o DeX parece estar um pouco mais à frente do que o Continuum, que só no outono deverá permitir funcionar com janelas flutuantes em ambiente de trabalho (atualmente, as apps no Continuum correm sempre em full screen)..Era assim de esperar, da empresa do Windows, uma reação contra este novo Samsung. Aconteceu o inverso. Um dia após o lançamento do S8 foi anunciado que o aparelho será vendido, nos EUA, nas lojas da Microsoft! Capitulação do gigante americano no mercado móvel, como vieram a correr dizer muitos observadores? Claro que não. O S8 à venda nestes espaços será uma versão especial, que incluirá de origem no seu sistema uma maior integração dos serviços da MS, como o OneDrive ou o Outlook..Dito de outra forma, o novo topo de gama do mundo Android será também uma ferramenta para aumentar os utilizadores da "nuvem" da Microsoft, empresa cujas contas estão cada vez menos dependentes do Windows. E se tivermos em conta o dinheirão em royalties de patentes que os aparelhos com o sistema da Google fazem entrar nos cofres de Redmond, quantas mais pessoas preferirem o S8 face ao iPhone - pelo menos até à criação do "novo paradigma" móvel prometido para a linha Surface - mais ganha a empresa fundada por Bill Gates.