Passos, o bombeiro pirómano

Qual é o Passos Coelho que devemos analisar? O líder da oposição que tratou, nos primeiros dias após as mortes em Pedrógão Grande, de deitar água no fogo dos seus adeptos, ansiosos em tentar aproveitar as 64 vítimas mortais do incêndio para queimarem politicamente, pelo menos, a ministra da Administração Interna? Ou temos de ver nele o dirigente do PSD de ontem, capaz de uma tentativa de incendiar a opinião pública contra todo o Estado por, nas suas palavras, estar "a falhar" e até haver pessoas que "se suicidaram e que não receberam o apoio psicológico que deviam?"
Passos Coelho será politicamente bipolar? Há um ano, no primeiro Conselho Nacional do PSD após o congresso, jurava aos dirigentes sociais-democratas que o seu partido não era o "bombeiro de serviço" da democracia e que António Costa teria de ser responsabilizado porque "o objetivo da governação que traçou para 2016 é inalcançável".
Um mês depois, o mesmo homem que não queria ser bombeiro prometeu o fogo do inferno com o anúncio da "vinda do diabo" em setembro. E garantia que estaria disponível, depois do desastre, para apagar as chamas que consumiriam boa parte da economia.
Como errou nas suas previsões, Passos ficou sem saber ser bombeiro nem incendiário. Perdeu o sentido da vida política e oscila, hesitante, entre a representação do homem de Estado, responsável e ponderado, com a teatralidade do demagogo revoltado, exaltado e mentiroso.
Passos Coelho é como um bombeiro doente, fascinado pelas chamas, pirómano e incapaz de se conter, corre voluntariamente o risco de se queimar para tentar reduzir a cinzas a floresta política que o cerca.
Não houve, até agora, suicídios na sequência dos incêndios em Pedrógão Grande nem faltou apoio psicológico na zona. Segundo vários jornais, logo na segunda-feira da semana passada foram para a região afetada 20 psicólogos, chegaram a ser 130 e ontem ainda estariam na zona 15.
Para manter a consistência da sua bipolaridade política, estou à espera que Passos venha a dizer, nos próximos dias, que, dada a ausência de suicidas, o governo está a gastar desnecessariamente preciosos recursos do Estado.
A seguir, quando apresentar os seus resultados a comissão, supostamente independente, que analisará no Parlamento os erros que estão na base da tragédia de Pedrógão, Passos é bem capaz de vir a propor a privatização da Proteção Civil ou defender a expropriação e entrega de toda a floresta às celuloses...
Mas esta loucura que atravessa a liderança social-democrata, a atual máquina de propaganda mais eficaz em salvar a reputação de António Costa e do PS, espalha-se pelo partido.
Um autarca candidato a presidente da câmara e provedor da Santa Casa de Pedrógão Grande (a propósito: quantos políticos do bloco central dos interesses andam a ganhar a vida pela Santa Casa?) deu-se como culpado pela notícia do falso suicida. Se a campanha autárquica do PSD seguir esta bitola, se persistir em usar a mentira, a calúnia e o boato para tentar vencer eleições, o partido é bem capaz de se queimar de vez...
... mas façamos uma pausa. Deixemo-nos de brincadeiras parvas e voltemos a tratar seriamente do que se passou em Pedrógão e do que temos de fazer para salvar a floresta. Pode ser?

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