O "museu Salazar", afinal, vai para a frente?

Leio, agora, no sítio do Jornal do Centro: as obras de requalificação da Escola Cantina Salazar estão a arrancar. O presidente da Câmara de Santa Comba Dão justifica assim o investimento de 150 mil euros na recuperação deste edifício: "Para que, no futuro, possa vir ali a ser alojado o Centro Interpretativo do Estado Novo não podíamos deixar degradar mais este edifício".

Foi uma polémica de Verão: a criação em Santa Comba Dão, terra natal de António Oliveira Salazar, de um museu sobre o ditador levantou um coro de protestos, passou por uma petição pública a exigir o cancelamento do projeto e culminou numa decisão da Comissão Permanente da Assembleia da República de condenação da ideia de construção desse "Centro Interpretativo".

O caso parecia encerrado... Mas não: o edil do PS volta à carga e oiço à minha volta zunzuns de que CDS, PSD e uma parte do Partido Socialista têm dúvidas sobre o assunto.

Recebo, entretanto, um aviso: há na internet uma nova petição da URAP (União dos Resistentes Antifascistas Portugueses) especificamente dirigida, ao contrário da primeira, ao Parlamento, para que os deputados tomem uma iniciativa que impeça, de vez, a construção do "Museu Salazar". Corro a assinar.

Do que estamos a tratar quando discutimos se deve ou não deve haver em Santa Comba Dão um museu constituído, em parte, com o espólio do ditador?

Não se trata de debater um problema científico - quanto mais os académicos aprofundarem o estudo do fascismo e da própria figura de António Oliveira Salazar, melhor.

Não se trata, igualmente, de tomar partido por defeitos ou virtudes do Estado Novo - quantos mais factos, puros factos, se revelarem sobre esse período da vida do país, melhor juízo as pessoas farão sobre a época.

Não se trata, também, de tentar censurar o conhecimento - quanto mais se souber, quanto mais sustentado e sério for o saber sobre o salazarismo, mais gente concordará, sem margem para dúvidas, que essas décadas do século XX foram anos negros, terríveis, criminosos.

Não se trata, finalmente, de falta de pluralismo - só num vendedor português de livros pela internet encontro 48 obras diferentes sobre Salazar, escritas por gente de esquerda e de direita, por críticos e apoiantes. Não falta diversidade na abordagem e quanto mais publicações, estudos e exposições houver, maior riqueza de análise teremos.

O problema não é a existência de um Centro Interpretativo do Estado Novo. O problema é, simplesmente, o local onde querem erguer este.

Do que se trata, portanto, é de um debate estritamente político que nada tem a ver com a Academia.

Construir um museu sobre o fascismo português na cidade de nascimento de Salazar é abrir a porta à adulação saudosista do ditador pelas pessoas que, iludidas, por falta de informação, por interpretação errada desse período, por estarem revoltadas com os podres da democracia, por serem adeptas do Estado Novo ou, até, da ideologia fascista, adoram António de Oliveira Salazar.

Essas pessoas encontram na glorificação, na mitificação, na veneração do ditador a forma ideal para tentarem evangelizar outras pessoas.

Não serão os eventuais elementos críticos e de denúncia que possam estar dentro de um "Museu Salazar" - localizado (volto a sublinhar) em Santa Comba Dão, terra natal do ditador - que diminuirão o magnetismo fascinante desse local para os crentes.

Pelo contrário: nessas cabeças as críticas aos abusos de poder de Salazar serão provas da autoridade e da firmeza com que o antigo Presidente do Conselho enfrentava qualquer inimigo, por qualquer meio, sem qualquer escrúpulo, em nome de um distorcido "interesse superior" da Nação. Alternativamente, essas denúncias dos crimes do fascismo português serão consideradas pelos salazaristas como meras falsificações históricas que reforçam a vitimização e subsequente entronização da figura que veneram.

É democrático tentar impedir a construção deste museu? É.

O endeusamento de Salazar, falacioso, é um instrumento fantástico para ativistas utilizarem a liberdade de expressão da nossa democracia num trabalho de conversão para ideais antidemocráticos de um número significativo de cidadãos, feridos e desiludidos pelos terríveis defeitos do nosso atual sistema.

Essas pessoas, muitas delas traumatizadas com a corrupção política e empresarial dos nossos dias, são permeáveis a acreditar que, apesar de todos as brutalidades, apesar dos assassinatos de opositores, apesar de censura aos jornais, apesar do isolamento do país, apesar do analfabetismo generalizado, apesar dos campos de concentração, apesar das prisões políticas, apesar do estatuto inferior das mulheres, apesar dos bairros da lata, apesar dos monopólios empresariais entregues a amigos do regime, apesar da fome entre os trabalhadores agrícolas do Alentejo e Ribatejo, apesar do número de nados-mortos, apesar da guerra colonial, apesar do medo da prepotência do Estado, apesar da PIDE, apesar da lista infindável de coisas terríveis que esse regime de 48 anos nos deu, há uma suposta superioridade moral remanescente em Salazar e no Estado Novo, face à perversão dos valores éticos das atuais classes dirigentes, que justificam a preferência do fascismo português face à democracia saída do 25 de Abril de 1974.

Esta crença, esta ira contra a democracia, não pode medrar porque, com todos os seus defeitos, a democracia portuguesa tem uma grande virtude que a torna infinitamente superior à mais santa das ditaduras: ninguém tem poder absoluto, ninguém fica eternamente no poleiro e todos estão sujeitos a crítica - e assim, mesmo o pior dos personagens políticos acaba por ter de sair de cena. Salazar, pelo contrário, só saiu por doença e o seu sucessor, Marcelo Caetano, por uma revolução.

É por isso, pela defesa da democracia, apesar dos seus defeitos, que não posso deixar de apoiar todos os que tentam impedir a construção deste "Museu Salazar" - nos tempos que correm, cada pequeno passo em direção ao fortalecimento do autoritarismo antidemocrático inspirado no período do fascismo português é um avanço numa direção que demorará décadas a ser invertida.

Apelo também ao leitor para que me acompanhe e assine esta nova petição. Ao contrário de outras petições bem parvas que andam por aí, como as que tentam impedir os deputados eleitos Joacine Moreira e André Ventura de tomar posse, esta nova petição contra a nova tentativa de construção de um museu que, inevitavelmente, se se concretizasse, seria transformado num santuário a Salazar e num instrumento de propaganda fascista, é verdadeiramente crucial: a democracia está doente, é verdade, mas deixar criar novos focos de infeção como este certamente não a curará, poderá mesmo ajudar a matá-la de vez.

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