O arquivo do Diário de Notícias não existe

Um grupo de personalidades está a organizar-se para pedir a "urgente classificação" do arquivo do Diário de Notícias, segundo noticiou o jornal Público.

Não querendo discutir os méritos ou deméritos da proposta gostaria, enquanto atual responsável direto pela gestão desse património, de corrigir alguns erros da informação veiculada por esse jornal e que parecem constar dos pressupostos de quem reivindica essa classificação junto do Estado português.

Em primeiro lugar há um erro de base na intenção de classificar o arquivo do DN por uma simples razão: o arquivo do Diário de Notícias não existe desde, pelo menos, 1991 quando, na sequência da privatização, o jornal foi comprado pela empresa Lusomundo juntamente com o Jornal de Notícias e com outras marcas relevantes da história da imprensa portuguesa.

Desde essa altura o património arquivístico desse grupo de comunicação social passou a ser muito maior do que o mero arquivo do DN: para além da excelente coleção de jornais, recortes de imprensa e de fotografias acumuladas desde 1864 pelas gerações de arquivistas do Diário de Notícias, juntou-se um trabalho de valor histórico e patrimonial idêntico feito pela equipa de arquivistas do Jornal de Notícias, desde 1888.

A partir do ano 2000, com a compra pela Portugal Telecom à Lusomundo do grupo de imprensa detentor dos dois jornais, a própria gestão do arquivo passou a ser unificada sob uma direção comum e a conservação e a atualização desse património passou a adotar critérios também comuns de armazenamento, classificação, digitalização e inserção de metadados.

Para além do património próprio do DN e do JN, este arquivo inclui materiais de outras marcas do grupo cuja dimensão e relevância, em conjunto, tornam esse património ainda mais significativo e importante para a sociedade do que os arquivos isolados do DN e JN: o Jogo, Dinheiro Vivo, Notícias Magazine, Tal & Qual, 24horas, Grande Reportagem, Vida Rural, Notícias da Tarde, Mundo Desportivo são apenas algumas das marcas que as empresas proprietárias do DN e do JN, ao longo de 185 anos, foram proprietárias e cujo acervo faz parte deste conjunto arquivístico, a que se acrescenta o arquivo do Açoriano Oriental, o mais antigo diário da Europa, fundado em 1835, cujo património está localizado e é gerido por esse jornal em Ponta Delgada.

A juntar a isto temos ainda coleções de jornais e revistas de marcas externas à empresa (uma vintena de marcas que vão de O Século à Colóquio Letras), nacionais e estrangeiras, coleções de recortes de toda a imprensa (organizadas por assunto e por personalidade) que abrangem várias décadas e foram feitas aquisições de arquivos externos, como é o caso do arquivo fotográfico do Diário Popular.

Falar apenas do arquivo do Diário de Notícias é, portanto, desvalorizar este património e identifica um claro desconhecimento da realidade por parte dos signatários dessa iniciativa.

Esse desconhecimento sobre o arquivo da Global Media Group (GMG) estende-se ainda a várias informações que o jornal Público cita: é mentira que a coleção do Diário de Notícias só esteja microfilmada desde 1970.

Tanto o DN como o JN têm toda a sua coleção de jornais microfilmada - iniciativa que foi tomada pela Lusomundo nos anos 90 do século passado. E, a partir do início deste século, todas as publicações da GMG (incluindo DN e JN) estão digitalizadas em PDF com reconhecimento de caracteres e metadados inseridos.

O desconhecimento dos signatários sobre a realidade do arquivo da GMG também se revela quando se afirma que este arquivo está "arrumado num armazém, inutilizável". É mentira.

No armazém referido - umas instalações com seguranças e vigilância, climatizadas, com controlo de humidade, controlo bacteriano, cumprindo os requisitos técnicos referenciados para este tipo de arquivo - está apenas uma coleção do Diário de Notícias e outra do Mundo Desportivo (existem na nossa posse mais duas outras coleções completas de cada uma destas marcas), para além de obras de arte que, não fazendo parte do arquivo documental, pertencem ao património da empresa.

Essas coleções estão disponíveis não só aos jornalistas do grupo como ao público em geral - quer no próprio armazém, que tem uma sala de leitura, quer nas instalações das Torres de Lisboa - basta, para se proceder à consulta, fazer um pedido aos nossos serviços por e-mail ou por telefone, como acontece todos os dias nas nossas instalações em Lisboa e no Porto.

O arquivo fotográfico, que estava guardado no antigo edifício do Diário de Notícias, encontra-se todo nas Torres de Lisboa, onde trabalham as publicações da GMG, e no edifício do Jornal de Notícias no Porto estão duas réplicas completas das coleções do DN e do Mundo Desportivo.

Também se diz na notícia do Público que o arquivo guarda um milhão de fotografias. É mentira, só digitalizadas são mais de cinco milhões, fora as que estão apenas impressas.

Também se diz na notícia do Público que o arquivo guarda 3,5 milhões de negativos, tem 50 mil chapas de vidro e zincogravuras, inúmeros originais de artistas e escritores. São números e factos que espelham confrangedoras estimativas superficiais e presunções fundamentadas num "ouvir dizer" que não correspondem de modo algum à realidade, na maioria dos casos por defeito, noutros por excesso, noutros por pura falsidade.

Finalmente, os signatários, segundo a notícia do Público, pedem a classificação do arquivo pelo Estado "como património arquivístico protegido, com vista à sua salvaguarda, organização e futuro acesso público", "atendendo aos riscos de extravio, deterioração e até destruição que neste momento o espreitam".

Precisamente para garantir que todo este património não se extravia, não se deteriora, não se destrói e tem acesso público garantido, foram tomadas medidas concretas.

Em primeiro lugar deu-se prioridade ao conteúdo fisicamente mais frágil: as coleções em papel. Nesse sentido procurou-se identificar qual a zona do país onde esta coleção poderia ser mais útil ao público em geral.

Uma vez que em Lisboa, em grande parte, estas coleções de jornais estão disponíveis na Hemeroteca Municipal e na Biblioteca Nacional (e ainda em outras instituições localizadas no sul do país) concluímos que teria maior interesse público e prestava-se um melhor serviço ao país arquivar e tornar acessível este património na zona do Porto onde, por exemplo, que seja do nosso conhecimento, não existe uma única coleção completa do Diário de Notícias nem de muitas outras marcas aqui referidas como constituintes da coleção da GMG.

Identificou-se o Arquivo Sophia de Mello Breyner, em Gaia, como um local com espaço, condições adequadas de armazenamento, técnicos qualificados para conservação e digitalização desse material, bem como um núcleo museológico capaz de promover e dinamizar esse conteúdo.

Este arquivo possui já uma coleção do Comércio do Porto e a junção do arquivo GMG, com todas as suas coleções em papel, criaria, no norte do país, um único ponto de acesso fácil a estes conteúdos para investigadores, jornalistas, estudantes ou simples curiosos que, simplesmente, não existe nem tem paralelo na região Norte do país.

Negociou-se com a Câmara de Gaia, responsável pelo Arquivo Sophia de Mello Breyner, um protocolo cujos princípios gerais são estes:

- O arquivo será sempre propriedade da Global Media Group.

- Não existem retribuições financeiras envolvidas.

- Os técnicos especializados do município responsabilizam-se pelo transporte, arquivamento e conservação do material.

- Os jornalistas da GMG podem aceder livremente ao arquivo

- O município pode digitalizar e fazer exposições deste material, mas não o pode comercializar.

- Será entregue uma cópia anual à GMG de tudo o que o município digitalizar.

- A GMG entrega trimestralmente as novas existências do seu arquivo.

- O público pode aceder ao arquivo, mas só para consulta nos termos que o Arquivo Sophia Melo Breyner entender. Qualquer comercialização do arquivo só pode ser feita pela GMG.

- Será criada uma marca própria para designar o arquivo e será nomeado um curador prestigiado que lhe dê relevância.

- Serão feitos protocolos com universidades para formação de arquivistas e irão promover-se candidaturas a fundos europeus para digitalização e formação.

- Será proposto ao Governo a disponibilização do arquivo digital produzido com este espólio em todas as escolas do país.

- A GMG compromete-se a promover editorialmente e publicitariamente as iniciativas associadas a este espólio.

- A câmara fará um seguro de 2 milhões de euros.

- O protocolo durará 20 anos, renovável por períodos de cinco anos.

- Durante o primeiro ano a GMG pode renunciar a este acordo sem penalizações.

O protocolo foi aprovado por ambas as partes - Câmara Municipal de Gaia e Administração da Global Media Group - e a mudança deveria ter começado em março mas, devido à crise provocada pela covid-19, foi adiada.

De fora deste acordo ficou o material fotográfico. Aqui o entendimento da Global Media Group é que esta parte do seu património deve ter um tratamento específico, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista de visão sobre a forma de disponibilização ao público que seja mais útil para o país, uma vez que em Lisboa não existe coleção de cariz semelhante, apesar dos bons arquivos fotográficos existentes.

Estamos ainda a analisar hipóteses, mas a que parece mais viável é a da realização de um protocolo com a Torre do Tombo.

É muito bom para o país que os seus intelectuais tenham a preocupação de preservar patrimónios documentais como este. O que pretendo com este texto é apenas convidar essa comunidade a informar-se melhor sobre este problema específico que a preocupa e a levar em conta todo um trabalho de preservação e divulgação que, ao longo de dezenas de anos, foi feito, está a ser feito e continuará a ser feito - os arquivistas que a ele se dedicaram e que a ele se dedicam bem merecem essa consideração, antes de serem publicamente postos em causa.

Diretor da Direção de Documentação e Informação da Global Media Group

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