Isto só se imita daqui a 151 anos

Hoje o Diário de Notícias faz 151 anos e eu vou falar de mim... Que ego, caramba!...

Aqui há uns cinco anos informei os leitores desta coluna: sou militante do PCP. Não foi a primeira vez que o fiz. Todas as administrações, chefias e camaradas de redação dos jornais e rádios onde trabalhei, desde 1983, foram informados desse facto.

Nunca escondi da minha biografia profissional os nove anos de trabalho no Avante! de que, aliás, me orgulho: um jornal que logo no cabeçalho identifica o seu proprietário ("órgão oficial do Partido Comunista Português") é um belo exemplo de transparência.

Quando ocupei funções de direção editorial, nomeadamente no 24horas, onde a minha forma de pensar, que inevitavelmente inclui essa componente ideológica, influenciaria decisivamente as opções jornalísticas, também dei aos leitores esse facto.

Entendo, aliás, que os jornalistas deviam informar o público sobre as suas opções ideológicas, os seus interesses financeiros, as suas paixões clubísticas e, até, as suas relações pessoais ou familiares que possam ter influência, direta ou indiretamente, na sua atividade profissional. Se exigimos isso aos políticos, não devíamos ser menos exigentes connosco. A generalidade dos jornalistas, porém, não está de acordo comigo neste aspeto... Talvez tenham razão.

Na verdade, só quando escrevi no Diário de Notícias esse texto sobre a minha filiação partidária - apesar de, como já disse, o ter feito antes, até em órgãos de comunicação social com maiores vendas, tiragens e circulação - senti verdadeiro impacto. Houve crónicas noutra imprensa sobre o tema, imensos comentários na internet, discussão, polémica, apoio e crítica e, manifestamente, ganhei leitores: passei, desde essa altura, para um crónico lugar de topo entre os cronistas mais lidos no site do DN, o que, claro, teve o defeito de fazer de mim um pavão opinativo igual a muitos outros.

Muita gente passou também a olhar para mim em formato de clichê: deixei de ser um indivíduo com pensamento próprio para passar a ser um comuna encarneirado... É a vida.

Esta experiência pessoal ilustra exemplarmente a importância deste jornal na sociedade portuguesa: a mesma informação pode ser reproduzida por outros órgãos de imprensa mas, na verdade, ser tratada no Diário de Notícias dá-lhe uma relevância poderosa.

É, portanto, a relevância, não a popularidade, que faz a marca do DN. Essa identidade conquistou-se, todos os dias, ao longo de 151 anos. É perene. É única. É insubstituível. Só é imitável daqui a 151 anos. Parabéns.