Passos Coelho pode dar aulas numa universidade?

O combate político não é ou não devia ser um combate contra indivíduos. O combate político devia ser contra grupos organizados que pretendem dominar a sociedade com projetos que, por boas ou más razões, motivam outros grupos a resistirem aos seus avanços ou a oporem-se ao seu domínio do governo, da economia, dos costumes, da comunicação, da propaganda, do ensino, etc.

Por vezes esse combate político pode ser personalizado: contra um primeiro-ministro, um líder partidário, um ministro, um deputado, um banqueiro, um economista, um académico, um cardeal, um sindicalista. Essa personalização do inimigo político é aceitável, e até necessária, apenas na medida em que essa pessoa simbolize ou incorpore as práticas e os objetivos do seu grupo político.

O confronto político pode, até, extremar-se em violência. Mas mesmo numa situação de luta armada entre fações, a mobilização contra um indivíduo não significa uma arregimentação contra o carácter dessa pessoa - um inimigo político pode ser uma ótima pessoa e há muitos amigos políticos de personalidade execrável.

A luta contra o indivíduo político, na parte ocidental desta esfera do globo, só devia tornar-se numa luta contra o indivíduo cidadão, contra um determinado fulano, em casos de ditaduras pessoais ou se esse ator político autorizar ou defender, consciente e deliberadamente, violações de direitos humanos básicos: neste caso, para além das ideias políticas erradas mobilizadoras de oposição, protesto e luta, há uma evidente deformação de personalidade que qualifica essa pessoa como criminosa, como indivíduo que a sociedade precisa neutralizar.

A luta contra o indivíduo político pode também ser pessoal em casos de utilização do poder para sustentar o abuso desumano de uma classe ou de um grupo dominante sobre todos os outros, em casos de corrupção comprovada, de comportamentos discriminatórios racistas, sexistas ou outros normativamente ou moralmente inaceitáveis para todo o conjunto da sociedade, no estágio civilizacional em que nos situamos hoje, dia 13 de março de 2018.

Não aceito que o combate contra o anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tenha sido um combate contra a pessoa Pedro Passos Coelho. Ele foi um primeiro-ministro terrível, espero que nunca volte, mas não foi um ditador, não violou direitos humanos, não fez negociatas criminosas, não abusou do poder, não fez nada que a sociedade atual possa criminalizar.

Dada a minha maneira de pensar a política, adorei quando o caminho para a manutenção no poder de Pedro Passos Coelho foi obliterado pelos resultados eleitorais que viabilizaram o atual governo.

Como acho que a maneira de pensar a política de Pedro Passos Coelho é nefasta para Portugal, percecionei como um avanço para o país o anúncio da sua retirada.

Mas aquelas minhas posições políticas nada têm que ver com o que penso do carácter de Pedro Passos Coelho: sobre isso, porque não o conheço privadamente e porque a sua vida pública, nesse aspeto, pouco revelou, nada penso.

Mas a minha maneira de pensar a política, para ser coerente, não pode alinhar com uma aparente operação de discriminação injustificada, individualizada, contra a viabilização de uma vida profissional digna a Pedro Passos Coelho - mesmo que ela venha a conduzir, mais tarde, a uma reabilitação do indivíduo político.

Quando vejo todo um movimento a tentar impedir a contratação pelo ISCP de Passos Coelho como professor catedrático convidado para dar aulas de Administração Pública, interpreto isso como uma perseguição ao indivíduo e não como um oposição política .

Em primeiro lugar, pergunto: Queriam o quê? Que Passos fosse para uma Goldman Sachs qualquer? Para um banco nacional? Para uma construtora civil? Para um escritório de advogados?... Estes destinos, que tantos outros antigos políticos seguiram, suscitam certamente maiores suspeitas e críticas do que um emprego académico numa universidade pública onde, em princípio, a traficância de influências é financeiramente quase inerte.

Em segundo lugar, havendo o reconhecimento generalizado de que a contratação do ISCP não é ilegal nem viola regras académicas, vejo com espanto um abaixo-assinado com 758 subscrições de professores e investigadores onde se alega que Passos não devia ser contratado porque "há doutorados a dar aulas sem remuneração e uma precariedade gritante na investigação, que está longe de encontrar o fim"...

Fazer uma denúncia justa contra a precariedade profissional para cometer uma injustiça pessoal parece-me, desculpem, uma mistura perigosamente demagógica. Porquê? Porque o que estes professores dizem implica, depois, que nenhuma universidade pública neste país possa contratar qualquer professor enquanto houver precariedade na profissão, o que seria bonito nos princípios mas arruinaria em três tempos o valor académico de muitas dessas instituições.

Resta uma alegada incompetência para dar aulas de Passos Coelho mas isso, desculpem, faz rir qualquer um que já tenha assistido a algumas aulas de alguns dos nossos professores catedráticos mais reputados - há quem nem saiba falar em público, quanto mais usar técnicas pedagógicas!...

Por acaso, a propósito deste caso, o que gostava de discutir é o equilíbrio ideológico das nossas universidades públicas: nessa batalha, uma certa direita tomou uma enorme dianteira, esmagadora, e dá um canudo académico, todos os anos, a milhares de seguidores, mentalizados por ela, que influenciam decisivamente os destinos do país. Isso sim, merecia combate político.

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