Costa tem medo que o PCP salte da geringonça? Ora ainda bem!

Assim que Jerónimo de Sousa anunciou a perda eleitoral pela CDU nas autárquicas, tanto políticos do PSD e CDS como vários jornalistas/comentadores em serviço para a cobertura eleitoral das televisões, rádios e sites começaram a conjeturar sobre os impactos que a derrota eleitoral (simbolicamente agravada, já de madrugada, quando se percebeu que a Câmara Municipal de Almada deixava, pela primeira vez em 43 anos, de ter um presidente comunista) poderia ter nas relações entre os partidos que formam a maioria parlamentar que apoia o executivo do Partido Socialista.

A tese dominante é esta: com a fragilização da influência autárquica do PCP em favor, na maior parte dos locais onde isso ocorreu, do PS, os comunistas farão a leitura de que estão a ser prejudicados eleitoralmente pelo apoio que dão ao governo. Segundo essa visão, a melhoria da economia, a descida do desemprego, a reposição de rendimentos e as outras medidas mais populares da atual governação beneficiam o partido de António Costa mas degradam o desempenho eleitoral dos seus circunstanciais aliados.

Para resolver esse problema e sublinhar a diferença política que o distancia do PS, não restaria ao PCP outro caminho que não fosse o de infernizar a vida ao primeiro-ministro, subindo a fasquia das reivindicações até ao insuportável, pedindo mais dinheiro do Orçamento para reformados, pensionistas, desempregados, professores, enfermeiros, médicos, magistrados, juízes ou funcionários públicos.

Vi mesmo escrita ou dita esta ameaça: "o PCP vai pôr os sindicatos na rua", um quase insulto aos sindicalistas, apresentados como meras marionetas dos comunistas e que ignora algo muito mais relevante na ação política do dia-a-dia, de sentido contrário, que é a forte influência dos sindicatos nas decisões do PCP.

Dois exemplos destas teses: Maria João Avilez escreve que "o PCP sabe o que aconteceu a outros partidos comunistas quando baixaram a guarda e cederam ao "abraço de urso" de partidos como o PS, pelo que a sua docilidade no quadro da geringonça vai ser questionada" e Pedro Santos Guerreiro avança que "será fácil o PCP atacar o governo: basta olhar para as partes do acordo de apoio ao governo que ainda não foram cumpridas, designadamente na legislação laboral, para perceber como a agenda sindical se irá impor em 2018".

Quase ninguém analisa os maus resultados do PCP do ponto de vista da realidade local onde os votos se exprimiram: a qualidade da gestão em concreto de cada uma das dez câmaras perdidas, a eficácia dos candidatos apresentados, as propostas feitas aos eleitores, o trabalho desenvolvido na campanha eleitoral, a capacidade de estar próximo do real interesse das populações, a competência em lidar com sucesso com o discurso das candidaturas opositoras.

Essa falha analítica - que advém, obviamente, de a maior parte de nós, jornalistas, não ter recolhido suficiente informação desse tipo para fazer um juízo tão aproximado e detalhado da realidade local - fragiliza logo à partida a consistência da tese de que o PCP sofre eleitoralmente com o sucesso do governo, até porque na esmagadora maioria dos locais onde a CDU governa só o PS tem hipóteses de a derrubar, pelo que se uma gestão autárquica comunista não for ao gosto dos eleitores serão os socialistas locais a solução alternativa.

Estando por provar a relação "êxito do governo = perda da CDU" ela terá de ser estudada mais profundamente. A tese pode ser verdadeira mas, na verdade, nenhuma sondagem eleitoral sobre legislativas, até agora, a sustenta, o que não sendo prova definitiva de coisa alguma, é um indicador de sinal oposto à ideia prevalecente nesses comentários.

O que sabemos é que a CDU desceu eleitoralmente nestas autárquicas e espero que o PCP, o meu partido, saiba analisar e identificar corretamente o problema ou, provavelmente, a complexidade de problemas que motivaram essa perda.

Mas se for verdade que o êxito do governo "mata" a CDU, então o PCP terá de avaliar se a missão que se autoimpôs no apoio ao PS cumpre os seus objetivos políticos de curto prazo: fragilizar a direita (e isso, é óbvio, está a conseguir), "empurrar" as decisões executivas para políticas de esquerda (por vezes não o consegue) e melhorar a vida das classes trabalhadoras (o que consegue muitas vezes, mas de forma ainda insuficiente). Se estes fatores, para a visão do PCP, resultarem num saldo positivo, o partido, mesmo depois de uma derrota eleitoral, não encontrará motivação para deixar de fazer acordos orçamentais com o PS e terá, como está na sua natureza, de desenvolver lutas institucionais, sindicais e de rua para que esse saldo positivo se mantenha. Não são estas autárquicas que mudam essa prática política.

Dizem que António Costa receia que o PCP desista da solução que a direita apelidou, maldosa, de "geringonça". Pois eu estou convencido de que António Costa deve é preocupar-se, em primeiro lugar, em não dar razões políticas válidas para que o PCP salte da geringonça. Portanto, o problema da sobrevivência da geringonça está, como sempre esteve, do lado do PS e não do PCP.

Se Costa mantiver um governo sem corrupção, sem cedências absurdas à União Europeia, sem mais perda de soberania, com o foco na recuperação de rendimentos do mundo do trabalho, sem negociatas financeiras esquisitas, sem favorecimento do capital monopolista ou especulativo, terá, certamente, geringonça por mais dois anos. Por tudo isto, aliás, é que acho bom para o país António Costa ter medo que o PCP salte da geringonça. Ainda bem.

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