António Costa traiu o Bloco e o PCP?

Na sexta-feira os deputados do Partido Socialista votaram a favor de uma contribuição a aplicar aos parques eólicos, proposta pelo Bloco de Esquerda, que deveria garantir 250 milhões de euros ao Estado. Este dinheiro serviria, segundo os proponentes, para subsidiar uma revisão das tarifas de eletricidade que aliviasse os preços pagos pelos consumidores.

Na segunda-feira o Partido Socialista deu o dito por não dito, usou uma manobra parlamentar para votar novamente o diploma e, com a exceção do deputado Ascenso Simões (por acaso especialista no tema da energia e antigo administrador da entidade reguladora do setor), votou em bloco, com o CDS, contra a proposta. O PSD absteve-se. Bloco, PCP, PEV, PAN e Ascenso Simões perderam no voto a favor.

Não sabemos o que se passou durante o fim de semana mas não devemos estar errados se presumirmos que a EDP (o principal alvo da medida) fez o seu trabalho de casa e conseguiu pressionar e convencer alguém de topo no PS.

Não sabemos o que se passou durante o fim de semana, mas não devemos estar errados se presumirmos que a única pessoa com poder para fazer inverter, num par de dias e de uma assentada, a posição de 85 deputados socialistas, pessoas que têm, dádiva natural, cérebro, raciocínio e vontade própria, só pode ser o líder do partido e primeiro-ministro, António Costa.

Não sabemos o que se passou no fim de semana, porque nem António Costa nem alguém do PS explicou a pelotiqueira mudança, mas sabemos que o Bloco de Esquerda acusou o governo de "deslealdade", "subserviência" e de "não honrar a palavra dada". E tem razão.

Já antes o PS recusara, sem explicação aceitável, propostas importantes do PCP e do Bloco: lembro-me de uma para reduzir a taxa máxima do IMI de 0,45% para 0,4%. E há a tentativa de quebrar fundamentos lógicos que sustentam o apoio político do governo, sobretudo da forma como os entende o PCP, como a tentativa de sabotar a contagem do tempo de serviço na carreira dos professores ou de adiar ao máximo a total reposição de rendimentos de outras carreiras na função pública .

Houve, ainda, outros conflitos menores do PS com o Bloco e o PCP. A divergência chegou ao ponto de dez alterações ao documento de Mário Centeno terem sido aprovadas com os votos conjuntos de PCP, Bloco, PSD e CDS. Houve outras cinco que passaram com uma união PCP, Bloco e PSD e uma (o imposto de sal sobre as batatas fritas ) votada a favor pelo PSD e CDS, com a abstenção do PCP.

Nunca a direita, que me lembre, se aliara tantas vezes à perigosa "esquerda radical comunista", para usar as palavras ditas ontem, depreciativamente, por Passos Coelho. PSD e CDS entraram assim em contradição com o seu próprio discurso contra o Bloco e o PCP e com a crítica ao aumento de despesa do Estado, para a qual contribuíram, com votos, na Assembleia da República. Tudo pela tática política!

António Costa traiu ontem o Bloco de Esquerda? Parece-me óbvio que sim... Tal como traíra o PCP ao tentar virar o país contra as subidas salariais dos funcionários públicos.

Tirarão o Bloco e o PCP consequências sérias dessas traições? Duvido que, para já, o possam fazer sem serem penalizados eleitoralmente. Por isso hesitarão... mas a moinha fica lá, até ao dia em que a incompetência, a arrogância, a corrupção ou um negócio esquisito lhes dê boa razão para acabar com a náusea... Será antes dos dois anos que faltam para as eleições?

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