Agora vamos prender o Pedro Arroja?!

O economista Pedro Arroja faz umas intervenções secretas num canal de televisão mais ou menos secreto. Fui ver algumas ao YouTube. Parece-me ser justa esta apreciação: as opiniões deste economista são, por um lado, parvas e, por outro lado, risíveis.

Gastar dez segundos na vida a elaborar sobre o que pensa Pedro Arroja acerca das mulheres ("não conseguem orientar-se", garante o professor) ou acerca dos homens ("sozinhos só fazem asneiras e violências", filosofa o comentador) é perda de tempo. É parvoíce.

Assistir à perplexidade retórica deste senhor quando coloca hipóteses sobre o artesanato que moldou o seu próprio pénis (se a mãe, se o pai, se Deus) é de cair para o lado à gargalhada. É uma anedota.

Como levar a sério um arauto do machismo homofóbico, que acha as dirigentes do Bloco de Esquerda "esganiçadas" e atribui as lideranças de Catarina Martins e Assunção Cristas, no BE e no CDS, a "um sinal de degenerescência dos partidos"?

Sustentadas as razões por que defino as opiniões deste homem na categoria "parvoíces cómicas" fico, por isso mesmo, siderado ao ver, desde novembro de 2015, uma sucessão de páginas de jornal a denunciar o pensamento deste intelectual do liberalismo económico.

Com tanta indignação e tanta análise, deram-lhe relevância. O que era uma idiotice pegada passou a ser um caso sério. Tão sério, oh espanto, que o Ministério Público, li ontem, empurrado por uma queixa apresentada pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, meteu um caso contra Arroja no DIAP por "incitação à discriminação", um crime com penas de seis meses a cinco anos...

Tenho muita dificuldade em ver leis, como este artigo 240.º do Código Penal, serem usadas para ameaçar com a cadeia franco-atiradores que usam a liberdade de expressão a defender ideias discriminatórias do ponto de vista racial, religioso ou sexual. Posso apresentar inúmeras razões para explicar a minha posição mas a principal é esta: criminalizar parvoíces é perigoso.

Imaginemos que algum tribunal condena o comentador, mesmo se numa modesta pena suspensa, convertida em multa leve. Está fabricado um mártir do regime, está constituída uma vítima do Estado, está posta em dúvida a sensatez da democracia, está lançado um processo de empatia com as palavras de Pedro Arroja.

Uma coisa é combater organizações segregacionistas, atos sexistas violentos ou marginalizantes, injustiças no trabalho, hábitos sociais atrasados. Outra é prender os malucos da aldeia. Isso é intolerância.

A parvoíce, quando restringida à insignificância, combate-se, apenas, com a razão ou, ainda melhor, com a indiferença. Deixem o Arroja falar... de preferência sozinho!

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