Má, tonta, cara ou familiar. Como eu conheço bem a preguiça

"Pediram-me para escrever sobre preguiça. E não me apeteceu." Texto pronto.

O tema era preguiça, então duas frases e o resto da coluna em branco podia ser a forma perfeita de sintetizar este sentimento. Um caso de "preguiça espertalhona". Ainda não cheguei a esse ponto, mas devo confessar que nos últimos dias concluí que, ao longo da vida, já experimentei vários episódios de preguiça. Para o bem e para o mal. Comecemos pela "preguiça má", a que me atingiu na adolescência e travou o meu caminho rumo à NBA (sonhar alto não paga imposto, certo?). Modéstia à parte, sempre tive algum jeito para jogar basquetebol. Isto, claro, se olharmos apenas para aqueles jogos de rua, a uma só tabela, onde praticamente não existem regras. Na verdade, tinha jeito para encestar a bola. De lado, de frente, por trás da tabela, de três pontos, até do meio campo quando estava mais inspirado, naqueles intervalos de aulas que muitas vezes eram apenas um ponto de partida para fazer gazeta a Matemática. Um dia, fui convencido a ir treinar a um clube. Treino físico sem bola, marcações individuais e à zona ou treino posicional eram apenas aborrecimentos no caminho daquilo que me dava prazer: lançar como se não houvesse amanhã. Não demorou muito até desistir. Fui preguiçoso, não há outra forma de o dizer. Hoje arrependo-me.

Mas a lista de episódios de preguiça não fica por aqui. Só alguns exemplos: a "preguiça tonta", que consiste em beber uma imperial num copo de plástico, prendendo-o com os dentes e recorrendo a pequenos movimentos com o lábio inferior e o pescoço para ir bebendo, sem nunca, mas nunca, usar as mãos; a "preguiça cara", que foi pegar no carro para me deslocar uns 200 metros até à mercearia do bairro, só porque podia começar a chover...; a "preguiça mental", que são aqueles momentos em que não queremos pensar em rigorosamente nada e que, por experiência própria, sei que é possível se estiver a brincar com um cão; ou a mais pura "preguiça física", em que se arranjam mil e uma desculpas para não ir fazer aquela caminhada que só nos faz bem.

Para o fim guardei a "preguiça familiar", a mais saborosa de todas. O cenário ideal é a manhã de um domingo invernoso, com chuva e frio a sério. De repente, sentimos a porta do quarto abrir, para logo depois os nossos filhos saltarem para junto de nós à procura de aconchego. E ali ficamos, preguiçosos e felizes. Quem disse que a preguiça não é boa?

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