Balanço do ano: estranhamente, está tudo mais à esquerda

Estes três anos de governo de "esquerda" fizeram bem ao país. Só mesmo os mais directamente envolvidos na situação anterior se sentiram de alguma forma prejudicados e nem todos pois muitos voltaram às suas vidas de sempre, mais sossegadas e quase sempre mais rentáveis. Como é que tal aconteceu? Se é verdade, foram várias as razões, mas talvez a principal decorra do facto de se ter voltado a um país em que é mais o que une do que aquilo que o divide, um país carregado de uma História de enorme importância, incluindo na sua diversidade. Comecemos por deixar a economia de fora deste balanço, pois todos já perceberam os erros e exageros dos anos da troika e o assunto está arrumado.

Uma primeira observação daquilo que se passa é que ninguém perdeu com a mudança de regime (chamemos-lhe assim), ao mesmo tempo que muitos ganharam. Quem mais tinha ficou mais ou menos na mesma, e quem menos tinha não só ficou um pouco melhor, como tem expectativas legítimas de ainda vir a melhorar. Esta mudança tem sido feita com moderação, sendo esse um dos principais segredos do sucesso da façanha, e um dos aspectos a preservar com mais empenho.

Uma segunda observação é que os que mais têm até não estão descontentes com isto - e aqui entra a História e o espírito "nacional" (que inclui, hoje, necessariamente os estrangeiros que sempre por cá houve) - porque os que menos têm estão próximos, sendo vizinhos, familiares, filhos, netos, avós, pais, colegas, o que se quiser. No fim do tempo da troika já muita gente sua amiga se preocupava com o que se estava a passar em redor, com as franjas não protegidas e com a pobreza.

O Estado tem muitos problemas que precisam de atenção, mas os problemas devem ser resolvidos dentro dele e não inventando negócios para alguns. Quem está no terreno das empresas sabe isso e gosta desta nova forma de vida em que quem investe e trabalha, investe e trabalha, sem rendas

Uma terceira observação revela o enorme falhanço da iniciativa privada nos sectores sociais. Com algumas excepções importantes, não há sector, dos bancos à saúde, do ensino aos transportes, em que a iniciativa privada tenha mostrado saber fazer melhor sozinha do que junto do Estado. As razões podem prender-se com a dimensão do país e do mercado, com falta de experiência, ou com outros aspectos, mas essa é uma conclusão a que muitos chegaram.

A iniciativa privada em Portugal, como aliás, em todo o resto da Europa ocidental, é importante na produção de bens e serviços onde haja um número importante de intervenientes e saudável concorrência. Para ela, o Estado serve para criar as condições favoráveis no que diz respeito às infra-estruturas, do ensino à saúde, dos transportes à energia. A iniciativa privada que vende ao Estado não é iniciativa nem é privada. O Estado tem muitos problemas que precisam de atenção, mas os problemas devem ser resolvidos dentro dele e não inventando negócios para alguns. Quem está no terreno das empresas sabe isso e gosta desta nova forma de vida em que quem investe e trabalha, investe e trabalha, sem rendas. O país, por assim dizer, todo ele, percebeu isso.

Uma última razão tem a ver com a política. Muitos descobriram com estes anos de vida política especial que afinal "comunistas" e "bloquistas" são pessoas como as outras, todas de um país com um grau de coesão assinalável. E com uma vantagem, que é terem menos interesses económicos próprios. Aqui as coisas podem correr mal, já que há ideias que podem trazer perdas culturais, de princípios ou mesmo financeiras. Isso deve ser uma preocupação, pois é necessário preservar a mistura e não a selecção de umas ideias em desfavor de outras.

Com isto tudo não há mais riscos? E a economia vai aguentar? Os riscos económicos são os mesmos de sempre, resultantes da posição do país no quadro económico europeu e mundial e quanto há muito a fazer, mas que nada que entre em colisão com o actual estado das coisas. Talvez o maior problema seja o do défice da balança corrente (isso mesmo), mas esse tem de ser vigiado não só pelo Governo, mas também por Bruxelas, pelo Banco Central Europeu e pela sua filial de Lisboa.

E há um segundo problema. A democracia precisa de oposição e de alternância governativa, e o que temos agora não chega, porque ainda não saiu do passado recente. Vai sair? Tem de sair. Ou talvez venha aí o populismo e tudo o que aqui se disse terá de ir para o lixo da História.

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