Da tragédia à farsa

Heráclito dizia que um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio. Porquê? Porque da segunda vez não será o mesmo homem e nem se estará banhando no mesmo rio. Ambos teriam mudado.

Serve o introito para ajudar à análise da vergonhosa injeção de dinheiro público no Novo Banco. O banco já não é o mesmo banco. Antigamente chamava-se BES e foi o maior escândalo financeiro do nosso país. Um tiro no porta aviões do setor financeiro e da elite banqueira nacional. O dono disto tudo quis representar a rábula do rei que ia nu e conseguiu-o magistralmente, ainda que se ficasse a rir à nossa custa.

A direita, PSD e CDS, foi cúmplice de um governador que não via o que se estava a passar porque não queria ver. Carlos Costa só afrontou Ricardo Salgado quando já era tarde demais e apenas para fugir à acusação de nada ter feito. A nacionalização do BES socializou a fatura do enorme descalabro.

O BES passou a Novo Banco, mas manteve os problemas. Novo Banco, males antigos, grandes buracos. A venda do Novo Banco apenas garantiu aquilo que temíamos: o Estado pagou para vender o banco. O fundo abutre fez aquilo que sabe fazer, aproveitando a fraqueza do decisor político para ficar no melhor dos mundos: comprar um banco com a garantia de que os contribuintes pagam o seguro contra todas as eventualidades.

O ministro já não é o mesmo. Foi Maria Luís Albuquerque que decidiu a nacionalização, foi Mário Centeno que decidiu a venda. Até Centeno não é o mesmo, porque antes era "apenas" o ministro das Finanças, agora é o presidente do Eurogrupo. Contudo, a gestão deste dossiê parece a história do Titanic. Já se sabia que a nacionalização seria a criação de uma enorme pira para queimar dinheiro público, já se sabia que a venda do Novo Banco iria destruir ainda mais dinheiro público, mas o desastre não foi evitado. Agora, chorarão lágrimas de crocodilo enquanto o dinheiro público é destruído.

Diderot evoluiu das teses de Heráclito e percebeu que o indivíduo era condicionado pelas mudanças da sociedade em que vivia. "Sou como sou" - escreveu - "porque foi preciso que eu me tornasse assim. Se mudarem o todo, necessariamente eu também serei modificado". Palavras interessantes para enquadrar este processo da venda do Novo Banco.

Centeno seria agora o presidente do Eurogrupo se tivesse recusado a venda do Novo Banco e batido o pé a Bruxelas? Teria a confiança da Comissão Europeia se lhe dissesse que ia proteger o interesse português e manter o Novo Banco na esfera pública? A frase até podia ser "se é para ter prejuízo, é preferível ficar com o banco do que pagar para o vender", eu assinaria por baixo. O Ronaldo das Finanças não teve pernas para fazer esta finta. Marcaria um golo para o país recordar, mas não o quis. Até teria o apoio do Bloco de Esquerda e uma maioria parlamentar, força não iria faltar, só que o todo a que Mário Centeno queria pertencer não defende Portugal e tinha opinião diferente. Foi preciso que se tornasse assim para estar onde está. De que nos vale?

800 milhões de euros já voaram do Fundo de Resolução para os cofres do Novo Banco, levando a um novo empréstimo de 450 milhões do Estado. De uma penada, todo o dinheiro que faz falta ao Serviço Nacional de Saúde foi entregue ao banco privado Novo Banco. E, sobre o futuro, o que têm para nos dizer é que ainda será pior. Mário Centeno preferiu cuidar da saúde do Novo Banco a cuidar da saúde das pessoas. A venda do Novo Banco está a sair cara ao país.

Contudo, há um outro caso a juntar a este para demonstrar como o presidente do Eurogrupo não tem feito diferente por Portugal. Quando Mário Centeno foi eleito, a notícia apresentava-se como ótima para o país. Finalmente uma voz dissonante dos cânones europeus, capaz de fazer ouvir a opinião portuguesa, diziam. Portugal estaria (e comportar-se-ia), finalmente, entre pares. Será mesmo?

Vejamos a forma como foi tratada a contabilização do défice português pelo Eurostat. Os apoios ao sistema financeiro somaram todos para o défice em Portugal, ao contrário do que acontece noutros países. Em Itália, esses apoios não foram contabilizados, por exemplo. Europeus de primeira versus europeus de segunda, uns que tudo podem e os outros que a tudo são obrigados.

Onde fica Centeno nestes processos? Vociferou cá dentro, para depois aceitar lá fora, desautorizado e diminuído. Percebe-se agora melhor que não foi eleito para fazer diferente, foi eleito para fazer igual a qualquer outro que estivesse no seu lugar.

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