Presidenciais – há lugar à esquerda para um(a) 'underdog'?

Falta menos de um ano para as eleições presidenciais, o Presidente da República tem níveis de popularidade elevados e há uma convicção generalizada de que todos os Presidentes em Portugal são reeleitos, interiorizada pela generalidade dos agentes políticos.

A última vez que uma reeleição presidencial foi competitiva foi em 1980, quando o general Soares Carneiro apoiado pela AD se apresentou contra o general Ramalho Eanes, que tinha o apoio do PS e do PCP mas não de Mário Soares e mesmo assim o Presidente-candidato teve 56% dos votos contra 40% do adversário. Em 1991, Mário Soares teve o recorde de 70% contra 14% de Basílio Horta. Em 2001 Sampaio, com 55,5% deixou Ferreira de Amaral a mais de 20 pontos de distância e em 2011, Cavaco Silva teve perto de 53% contra menos de 20% de Manuel Alegre.

Parece que se caminha para a repetição com Marcelo do cenário de 1991, agora com troca de papeis entre o PS e o PSD. Então, o PSD deixou a disputa entregue ao candidato que se auto-proclamava "`as direitas" (foi antes da epifania que levou Basílio Horta ao socialismo democrático). Agora, o PS parece disposto a encorajar o não aparecimento de um candidato que se cruze com o seu espaço político. Tal como em 1991, teríamos apenas o Presidente-candidato e candidaturas de estrita emanação partidária para cumprir agenda, passar mensagem e eventualmente rodar figuras cuja visibilidade se pretenda elevar, como nesse ano o PCP fez com Carlos Carvalhas.

A inclinação de António Costa para não criar dificuldades a Marcelo é um ato racional. Convencido da inevitabilidade da derrota, tendo escolhido um percurso no segundo mandato de regresso a uma solução de governo minoritário que negoceia entendimentos pontuais de geometria variável, que tanto podem, como se viu logo na primeira dificuldade, passar pelo abraço do PCP como pela mão estendida ao CDS, necessita de contar com uma posição cooperante em Belém.

É certo que a história ensina que Mário Soares não só não agradeceu a não apresentação de um adversário como apressou, com as Presidências abertas de denúncia de vários problemas e desequilíbrios sociais, o enfraquecimento do PSD na última legislatura de Cavaco Silva. Mas, tudo visto e ponderado, o risco de não enfrentar Marcelo patrocinando uma candidatura é para o governo bastante menor do que o de se envolver na batalha presidencial.

Mas há dados novos na situação política portuguesa face a 1991 que merecem ser considerados por quem esteja menos focado no governo. Marcelo com o apoio explícito ou implícito de CDS, PSD e PS será a encarnação unipessoal do arco da governabilidade, algo que António Costa tinha pugnado por extinguir. Mais importante, se Marcelo for "o sistema", alimentará a fera populista, dando azo a que André Ventura possa expandir o elemento essencial do seu discurso, o de que é o que vem "de fora" em nome "do povo" contra "eles", que neste caso até estão convenientemente para si unidos a uma só voz e ninguém se surpreenda se nesse contexto triplicar ou quadruplicar o resultado do seu partido nas legislativas e se isso tiver algum efeito de arrastamento para eleições seguintes. Finalmente, a esquerda democrática terá que escolher entre Marcelo e candidatos com agenda partidária, emanados do BE e do PCP, se não quiser votar com os pés, ficando em casa.

Perante isto, os sociais-democratas, socialistas democráticos, ecologistas de esquerda que priorizem o seu espaço político sobre as conveniências imediatas de partidos ou governos, os ativistas de diferentes causas sociais, incluindo as sindicais, teriam muito a ganhar em assumir uma candidatura-travão do populismo, mas também de criação de dificuldades ao regresso do arco da governabilidade, uma candidatura de alternativa a que o centro de gravidade do sistema político deslize para a direita, centrado num Marcelo reforçado, depois da estrondosa derrota que esta teve nas eleições legislativas.

A pessoa que protagonizasse essa candidatura teria que aceitar o estatuto de underdog e partir com realismo do princípio de que há um candidato que já está a ensaiar o discurso da sua segunda posse. Mas em matéria de presidenciais já vi cair várias leis de ferro. Cito duas apenas - a de que um candidato apoiado pela esquerda nunca perde (já levamos dois Presidentes de direita) e a de que os portugueses "nunca põem os ovos todos no mesmo cesto", pela qual muitos cérebros brilhantes e muitos deles dentro do PS achavam inevitável que Sampaio perdesse as Presidenciais se Guterres ganhasse as legislativas (ganharam ambos e apoiando-se mutuamente nas campanhas eleitorais).

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