"Estado de guerra": nada pode ser como de costume

Isto será tudo muito mais difícil se não compreendermos que já não pode ser como de costume. Para efeitos dos nossos comportamentos estes são de facto "tempos de guerra".

Vivem-se dias extraordinários. Os portugueses fecham-se em casa. A saúde pública procura evitar a transmissão, identificando e atuando sobre os contactos dos casos conhecidos. Os hospitais estão na linha da frente da sobrevivência dos mais frágeis. A sociedade procura fazer o que pode e o que não pode para proteger os mais vulneráveis.

O governo toma medidas para que o país não pare, não se afunde. As empresas procuram sobreviver.

Sabemos que as próximas semanas, os próximos meses, vão ser particularmente difíceis. Na última entrevista televisiva ao primeiro-ministro, o jornalista começou por dizer que estamos todos assustados, perguntando ao entrevistado se estava também.

O primeiro-ministro, e bem, não respondeu.

A questão parece-me clara. Para tempos extraordinários como este, precisamos de ir para além do obrigatório. Precisamos de adotar voluntariamente códigos de conduta próprios destes tempos. O objetivo também é claro: ajudar a comunidade a superar física e mentalmente a enorme pressão material e psicológica a que esta sujeita. A fazer novas aprendizagens e adquirir novas competências, a aumentar a sua resiliência face a adversidade, a acreditar que havemos de superar este desafio.

É aceitável que uma "garganta funda" na DGS venha a contrariar publicamente os seus dirigentes, uma e outra vez, a coberto do anonimato, e que a comunicação social lhe dê cobertura, como habitualmente?

Isto será tudo muito mais difícil se não compreendermos que já não pode ser como de costume. Para efeitos dos nossos comportamentos estes são de facto "tempos de guerra".

É aceitável que uma "garganta funda" na DGS venha a contrariar publicamente os seus dirigentes, uma e outra vez, a coberto do anonimato, e que a comunicação social lhe dê cobertura, como habitualmente? Sabendo como é muito importante para as pessoas a confiança nas autoridades de saúde?

Sabemos que estamos longe de ser um país perfeito. E que apesar de todo esforço de superação em curso, continuaremos a observar imperfeições. Temos que ajudar a identificá-las e a ultrapassá-las. Mas denunciá-las simplesmente para confirmar o nosso estado de imperfeição?

Num mesmo dia, em 16 de Março, uma equipa de investigação do Imperial College de Londres disse-nos que é preciso abandonar a abordagem da gripe pandémica ("contenção - mitigação") e adotar uma outra própria deste vírus ("contenção - supressão"); uma outra equipa internacional, chama a atenção, na revista Science, com base na experiencia chinesa, para a necessidade de identificar as infeções que permaneciam desconhecidas através dos procedimentos habituais. No mesmo dia a OMS lança o desafio "testar, testar, testar". Quem não compreende que a resposta a estas novas orientações, a nível global, não se consegue em poucas dias?

Precisamos de ajudar as pessoas a compreender e tratar do presente e a pensar o futuro. Atualmente o foco tem estado na previsão do comportamento da curva epidémica (ponto de inflexão e pico), por razões óbvias. Para depois, o importante é como nos reerguemos desta contusão. E para isso muita gente tem que fazer contas. Mas faz sentido focar o debate público na previsão de 15.000 óbitos no pico da curva, de 1 milhão de desempregados na segunda metade do ano, ou de uma eventual segunda onda epidémica mais tarde (que pode acontecer ou não)?

Precisamos todos de adotar um novo código de conduta.

Não será preferível agora, para o nosso bem-estar, individual e coletivo, ir passo-a-passo, focando em cada fase do processo epidémico aquilo que seguramente sabemos e aquilo que precisamos de fazer agora, preparando-nos o mais razoavelmente possível para o necessário, na fase imediatamente seguinte?

Do meu ponto de vista, o primeiro-ministro deu uma entrevista muito importante. Procurou informar, moderar, proteger e mobilizar.

E no entanto, no dia seguinte, poucos foram os titulares que realçam esses méritos, e alguns convidam explicitamente à desconfiança. Isso não nos faz bem.

Ao reconhecer que vivemos tempos extraordinários, que representam para todos um grande desafio existencial, não podemos insistir em fazer como sempre, independentemente dos seus efeitos nesta conjuntura.

Precisamos todos de adotar um novo código de conduta.

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