Sem noção, sem educação e sem empatia

É noite, está escuro e frio e à porta da capela mortuária da igreja está um grupo de gente com olhares consternados e ombros caídos. De vez em quando viram a cabeça na direção de algum carro que chega. O filho do defunto. A filha. A mulher. A mãe. Há abraços, lágrimas, gente que se junta porque deve estar ali - o conforto do aconchego entrelaçado no estômago, embrulhado com os remorsos pelo tempo que passou desde a última vez que se viram todos. Cheira a flores, há coroas e palmas, fitas com sentidas condolências e saudade eterna, uma fotografia antiga numa moldura grande a lembrar como ele era.

Já passou por isto? Já sentiu isto? Já apoiou ou foi apoiado em momentos destes? Ninguém chega a adulto sem ser chamado várias vezes a abraçar ou ser abraçado no luto.

Agora imagine o que seria se, nestes momentos, surgisse alguém do outro lado da rua a ofender o morto. Com todos os nomes do vernáculo e a raiva concentrada em palavras que ferem e ferem mais quando são disparadas num momento destes, quando estamos sem guarda. Do morto estamos conversados: do caixão não se levanta para se defender. Na família pode haver gente com vontade de espetar um sopapo em quem ofende, mas será aquele o momento certo? E terão estofo emocional para o golpe?

A imagem não é verdadeira. Isto não aconteceu. Ou pelo menos eu não vi. Mas imaginei. Fiz este filme na minha cabeça à medida que ia lendo, pasmado, cada vez mais agoniado, os comentários nas redes sociais às várias notícias que davam conta da morte de Joaquim Bastinhas há três semanas.

Eu, que não sou de abrandar para ver acidentes na autoestrada e me enervo com quem o faz, não consegui parar de ler. Durante os três dias que se seguiram ao anúncio da morte e funeral do toureiro, fiz várias vezes esse exercício masoquista e escatológico de vaguear pelo esgoto a céu aberto de palavreado sujo capaz de envergonhar o mais ordinário dos trolhas. O que levou aquela gente a regozijar-se tanto com a morte de outro ser humano? Que falta de noção pode haver em tantas cabeças para o chorrilho de poluição verbal em tantos carateres desperdiçados em sentimentos daqueles? Um homem morreu numa cama de hospital no último dia do ano e uma longa turbe desata em festa?

Se podem escrever aquilo? Claro que podem. É uma conquistas da história contemporânea do país: toda a gente pode dizer e escrever o que quiser. Isso é liberdade de expressão e está consagrada na lei.

A mesma que pode defender os ofendidos com palavras que lhes sejam dirigidas. Poder, podem. Mas devem? Entra na consciência de cada um, e essa, já se sabe, tal como o bom senso, não foi particularmente bem distribuída à nascença. Não é preciso gostar de touradas - eu não gosto, de todo - para ficar consternado com tudo o que se escreveu durante aqueles dias sobre a morte de uma pessoa. Sabemos que touradas e toureiros são arena fértil para ódios ferozes porque nos afrontam moralmente. E sabemos que as redes sociais são o meio eficaz para gritar e vociferar o descontentamento. O desagrado ampliado. Mas... mas do outro lado há gente que gostava dele e que se ressente. Há uma família em sofrimento. Há um espaço de luto que é preciso respeitar para não se ser bully. Ou troll. Ou apenas deselegante e mal-educado. E sem empatia. Essa extraordinária capacidade de nos colocarmos na pele do outro.

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