Pode vender-se a alguém o que alguém não quer comprar?

Com cada vez menos dinheiro e com cada vez menos relevância, muitos jornalistas continuam convencidos de que a culpa é dos outros. Dos que não compram, dos que não publicitam, dos que não financiam. Mesmo quando se considera que a culpa também é dos jornalistas, é dos outros jornalistas. E não parece ocorrer a ninguém que, entre culpas e desculpas, há uma fatalidade neste negócio: a intermediação é cada vez mais dispensada, quer pelas fontes quer pelos destinatários.

As redes sociais não precisam de jornalistas, como não precisam de jornalistas as conferências de imprensa sem direito a perguntas. E os meios de comunicação social também não precisam de jornalistas que vão a conferências de imprensa sem perguntas para fazer. E não precisam de jornalistas que não são capazes de procurar e encontrar a informação que as fontes não querem revelar.

Uma parte significativa dos jornalistas reuniram-se em congresso, fizeram diagnósticos e procuraram soluções. Do que pude perceber, a precariedade dos postos de trabalho e os baixos salários (matéria laboral) e as opções que fazemos como jornalistas (matéria editorial) estiveram em destaque. Para resolver a primeira é preciso dinheiro, para resolver as duas é preciso coragem. Vamos por partes.

O que tem financiado as empresas de comunicação social, seja as que oferecem a informação (televisões, rádios e sites abertos) ou as que a vendem (jornais e sites fechados), tem sido a publicidade, mas ela dissemina-se agora por múltiplas plataformas. O investimento no online já supera o investimento nos jornais e na rádio e a televisão também se prepara para ser ultrapassada. Mas, do bolo publicitário na internet, a Google e o Facebook ficam com bastante mais do que metade. Isto quer dizer que as empresas de comunicação social vão ter de encontrar financiamento alternativo. Já não chegam os eventos e os produtos patrocinados, é preciso muito mais. As empresas (não os jornalistas) vão ter de entrar no comércio online, vendendo produtos e serviços, tirando partido de terem os sites que geram maior tráfego. É preciso primeiro encontrar o necessário investimento para dar este passo e depois ultrapassar o preconceito dos jornalistas que costumam reagir mal sempre que aparece uma nova forma de financiamento. Mas muitos jornalistas afirmam orgulhosamente não querer saber do financiamento das empresas em que exercem a sua profissão. Viabilizar as empresas onde se faz jornalismo implica muitas vezes contrariar a vontade dos próprios jornalistas. Confunde-se falência com liberdade, viabilidade com dependência. Como se não dependesse apenas do próprio jornalista afirmar diariamente, com o trabalho que faz, a sua liberdade e a sua independência.

Vencida a dificuldade financeira, os que lá conseguirem chegar vão mesmo ter de resolver as questões laborais, porque não há bom jornalismo sem jornalistas motivados. A primeira etapa terá de ser a de dar as mesmas condições de trabalho aos mais novos e aos mais velhos. Não é possível manter este gap geracional, em que uns têm todos os direitos e os outros não têm direitos nenhuns. A camaradagem não pode ser, apenas, uma forma de dizer bom dia, tem de ser um modo de vida. Nada nesta profissão é dado, como em muitas outras, tudo tem de ser conquistado. Mas não é necessário chegar ao equilíbrio financeiro para resolver as questões das opções que fazemos editorialmente.

Quando ouço um jornalista queixar-se da hierarquia, culpando-a pela qualidade do seu trabalho, fico sempre perplexo. Em que redação não se discutem boas ideias, quando elas aparecem? Em que redação um bom texto é transformado num texto descuidado por interferência de uma chefia? Quando vejo o tempo que gastamos a discutir a cobertura das agendas dos poderes instituídos, sei que os jornalistas ainda não sabem que é isso que nos divorcia dos leitores e, portanto, os afasta de nós. É mais fácil fazer o que todos fazem, é preciso coragem para fazer diferente. Quando ouço os jornalistas falar de bom jornalismo, questiono-me sobre o lugar onde eles se encontram quando, com demasiada frequência, nas redações se produzem notícias sem cumprir as regras mais básicas, como cruzar fontes ou fazer o contraditório.

Sim, é preciso resolver as questões laborais que afetam sobretudo os jornalistas mais novos, os que chegaram à profissão já ela vivia uma crise profunda. Nada disto será feito sem que se encontrem outras fontes de financiamento, nada disto será feito se não houver diferenciação, nada disto será feito até que os jornalistas percebam que o que querem vender ninguém lhes quer comprar.

Sim, há futuro para o jornalismo mas, neste mundo que acelera o andamento, há muita gente que vai ter de ficar pelo caminho. Os leitores não precisam de nós para lhes dar conta dos tweets, dos vídeos virais, das polémicas artificiais no Facebook. Não há ninguém a decidir pelos jornalistas as opções que os jornalistas fazem. Ser jornalista é fazer perguntas, insistir até ter respostas. O melhor que teremos para vender será sempre o que só nós soubermos fazer.

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