Com base numa mentira não há opinião, há mentira

Já lá vão quatro anos, escrevi um texto em que revelava o meu incómodo pela "santa opinião" estar a sobrepor-se aos factos. A "ditadura do comentário", de que faço parte, tinha tornado os factos irrelevantes. Esta excrescência da comunicação agravou-se, havendo agora muito mais opinião sustentada em factos falsos.

Em janeiro participei num encontro com gestores de várias empresas que costumam reunir-se com gente de outros setores procurando conhecer melhor aquilo que conhecem mal. Rui Rio era um desses gestores e perguntou-me o que fazia um diretor quando um cronista escrevia uma opinião baseada num facto falso. E acrescentou: "E quando isso acontece repetidamente?" Confesso que balbuciei qualquer coisa sobre o peso da influência do cronista que estivesse em causa, da importância que tivesse para o jornal, mas não o devo ter convencido grande coisa, porque eu próprio não fiquei muito convencido com a explicação que dei.

De lá até cá, dei comigo a ler com mais atenção a opinião publicada e percebi que a verdade alternativa de Trump faz caminho em Portugal. Na verdade, quando puxo pela memória, verifico que a verdade alternativa com que os radicais das claques fazem opinião já é coisa que dura há muito tempo. Terá começado na esquerda mais radical que sempre teve espaço na comunicação social para dizer o que lhe apetecia e é evidente agora na direita mais "Tea Party". Em defesa daquilo em que acreditam não os preocupa a verdade, não lhes diz respeito o rigor, não querem saber de quem enganam. Procuram engrossar as fileiras, sonhando com amanhãs que cantam, vendo-se como salvadores da pátria. Comentam fazendo política, enquanto dão um ar de grande preocupação com o destino do povo e do país. É assim à esquerda e é assim à direita.

A moda na semana passada, por exemplo, foi desvalorizar a notícia do jornal Público sobre os dez mil milhões de euros que partiram para offshores sem carimbo no passaporte, que é como quem diz sem serem fiscalizados pela Autoridade Tributária. Aprendizes de Trump apressaram-se a ver uma notícia plantada, não pondo a hipótese de haver jornalistas a trabalhar e à procura da verdade. Não a verdade alternativa que lhes dá jeito, na pergunta de um comentador, sobre "a reprodução quase exata da notícia do Público de Abril, agora ressuscitada para desviar as atenções da CGD".

É o desplante total insinuar que o Público estaria dolosamente a repetir uma notícia própria para servir interesses da esquerda. Não lhes ocorre informarem-se para perceber a diferença entre os dez mil milhões de euros que foram notícia em abril por fazerem parte da estatística e os outros dez mil milhões que foram agora notícia por terem passado ao largo. O pior, é mesmo o pior, é que há muito quem siga estes comentadores, que não se responsabilizam pelos factos falsos que usam para fazer opinião. E depois há muita gente que fica a acreditar que é mesmo verdade, que o jornal publicou a mesma notícia duas vezes, com o intervalo de nove meses, para servir interesses políticos.

Há um problema sério na democratização do espaço de opinião, porque ele só é democrático na medida em que é livre e generalizado, mas é bem antidemocrático na medida em que não responsabiliza quem comenta. Na anarquia em que vivem as redes sociais pode parecer natural a desresponsabilização, mas em meios de comunicação social é necessária uma maior exigência. Num futuro próximo, até nas redes sociais, vai ter de existir mais responsabilidade.

A mais perigosa das mentiras é a que se agarra a alguns factos verdadeiros, e o mais perigoso dos cronistas é o que adapta a realidade ao seu preconceito. Tendo entrado por este caminho, vai ser muito difícil deixá-lo. Trabalhar sobre um facto incómodo, mesmo que falso, é visto como um ato de grande coragem. A verdade, pura e simples, é chata, não produz fiéis seguidores, não diferencia. A verdade é o que é, enquanto a mentira é o que cada um quiser que seja. Muitos leitores não distinguem sequer o que é jornalismo do que é opinião. Isso vê-se nas caixas de comentários, onde quem escreve nos jornais é sempre visto como jornalista e onde a opinião de jornalistas é atacada por não cumprir critérios que se aplicam apenas à elaboração de uma notícia.

Uma mentira numa notícia é muitas vezes, e ainda bem, para os tribunais, um crime de difamação, enquanto uma mentira numa opinião é, infelizmente, para os mesmos tribunais, a mera liberdade de expressão. Por este caminho, chegará o dia em que não saberemos comunicar uns com os outros. O melhor mentiroso será coroado o rei da festa.

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Pedro Lains

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Em Portugal, há recorrentemente espaço televisivo para políticos no activo comentarem notícias generalistas, uma especificidade no mundo desenvolvido. Trata-se de uma original mistura entre comentário político e espaço noticioso. Foquemos o caso mais saliente dos dias que correm para tentar perceber a razão dessa peculiaridade nacional. A conclusão é que ela não decorre da ignorância das audiências, da falta de especialistas sobre os temas comentados, ou da inexistência de jornalistas capazes. A principal razão é que este tipo de comentário serve acima de tudo uma forma de fazer política.