A liberdade de um homem livre


Belmiro de Azevedo, para mim, jornalista, é o homem que se tornou mecenas de um projeto jornalístico ímpar na comunicação social portuguesa. Bem mais novo, o Público faz parte da história da comunicação social como o DN ou o JN, que há muito festejaram o centenário, ou o Expresso, a TSF e a SIC, para falar apenas dos que ainda cá estão. Belmiro nunca teve de se preocupar com o lucro do projeto que Vicente Jorge Silva montou e isso deu-lhe uma liberdade imensa, acabando por ser também essa a liberdade do Público. Mais do que Pinto Balsemão, de quem tanto se escreveu sobre a independência que dava aos seus títulos, Belmiro soube manter-se incondicionalmente um homem livre. Nisso foi único.

Na hora da partida é sempre mais fácil fazer encómios. O aplauso a Belmiro é devido pela liberdade que viveu e defendeu como modo de vida, pela resiliência que mostrou em defesa de um projeto, pela coragem de fazer o caminho mais difícil, abdicando de tirar proveito indevido da influência que construiu.

Mas a liberdade de um homem livre também se constrói com falácias. Belmiro nunca foi "o homem rico que tinha comportamento de pobre", como o próprio se definiu em entrevista à Visão no início desta década. Belmiro fez-se rico e viveu rico, o que nunca quis foi fazer gala disso, mesmo aparecendo na Forbes ou na Exame como um dos mais ricos de Portugal. Também aqui reside uma grande dose de liberdade: a quem a falta de dinheiro não obriga a contar os dias do calendário, o dinheiro dá tempo. Há mérito e sabedoria nesta opção. Muitos dos que são ricos julgam-se, e querem que os outros os julguem, por aquilo que têm; Belmiro viveu uma vida que nos obriga a todos a olhar para ele pelo que ele foi, pelo que ele defendeu e pelo que ele construiu, muito mais do que pela riqueza que ele conseguiu acumular. Mais livre, era impossível.

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