A sentença antes do julgamento

Os arguidos não são acusados e os acusados não são culpados. Num dia como o de ontem em que ao final da manhã as redações foram inundadas com notícias de buscas, detenções e acusações existe o risco facilitista de julgar tudo pela mesma bitola.

A dificuldade da justiça comunicar, reconhecida pela investigadora Conceição Gomes, não a inibe de avisar jornalistas para estarem à porta dos arguidos, mesmo antes de se iniciarem as buscas. O espetáculo mediático não ajuda a informar e, nas redes sociais, os comentários são servidos em forma de sentença.

Vários casos no mesmo dia não sustentam a conversa de café, segundo a qual vivemos num país de criminosos. Os três casos de ontem não têm, aliás, nada em comum. Acusação de peculato, suspeita de tráfico de influência e corrupção e roubo de cheques da Segurança Social.

A Polícia Judiciária e o Ministério Público cumprem o seu papel, mas entre uma rede organizada que roubou cheques no valor de 300 mil euros e um ex-secretário de Estado que é acusado de ter usado indevidamente 400 euros para comprar livros e revistas vai uma distância quase infinita. Sendo que, por ser quem é, o ex-governante interessa muito mais ao espetáculo. Tendo ao lado um ex-colega de governo acusado do mesmo mas no valor de 14 mil euros.

Ainda mais difícil de entender é a implicação de Filipe Vieira num dos casos. Foi preciso esperar horas para o Benfica negar que o seu presidente tivesse sido constituído arguido. Há um dirigente desportivo arguido, mas do Ministério Público nem ai nem ui perante as notícias de que é o presidente encarnado. Em que ficamos? Ficamos numa justiça a decorrer na praça pública e que, muitas vezes, parece não se preocupar com a verdade dos factos.

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