Porque deu Marcelo a mão a Costa e a Passos?

O advogado José Miguel Júdice, que no início da década de 1980, andou envolvido na Ala Nova Esperança com Marcelo Rebelo de Sousa, e de quem diz ser amigo, afirmou no seu comentário televisivo semanal, na TVI 24, que o Presidente da República sempre teve "medo" de que alguma coisa corresse mal nos projetos políticos em que participou. Talvez isso explique que o inquilino de Belém se agarre à estabilidade política como uma âncora para o seu próprio sucesso presidencial.

É normal que o Presidente defenda a estabilidade do governo, até pela solução potencialmente instável do apoio à esquerda. Cavaco Silva também o fez, numa primeira fase, com o minoritário de José Sócrates. Mais bizarro é Marcelo ter feito esse apelo em relação à oposição, condicionando até a vida interna do PSD, que depois das autárquicas poderá sofrer agitação interna. Na entrevista à SIC, Marcelo deu uma mão ao governo e a outra a Passos Coelho. Se António Costa deve cumprir a legislatura, o líder da oposição também, disse ele, sabendo que o PSD tem diretas e um congresso no próximo ano e que as eleições legislativas só serão em 2019. Mas porque será que o Presidente agora se preocupa com a sobrevivência política de Passos? Muito provavelmente porque percebeu que o ex-primeiro-ministro está a jogar por antecipação ao que as autárquicas lhe trouxerem de resultados e a arriscar o tudo ou nada no modo de fazer oposição - numa estratégia à Sá Carneiro tão apreciada pelo PSD e unificadora do partido.

O chumbo de ontem do PSD à TSU como contrapartida ao aumento do salário mínimo nacional, ao lado do BE e do PCP, foi apenas a primeira etapa de uma nova forma de desgaste do governo. Costa vê-se obrigado a um plano B para compensar o acordo de concertação social. E que plano irá encontrar se o PSD também chumbar a regulamentação da Uber e da Cabify, que também conta com a rejeição do PCP e do BE? E quantos planos B terá Costa de encontrar neste ano sempre que os partidos à esquerda roerem a corda às medidas governo?

Francisco Assis foi o primeiro a dizer que há potencial para a maioria de esquerda ficar paralisada e 2017 ir empurrando devagarinho o país para eleições antecipadas. A imprevisibilidade política, a somar à económico-financeira, não é boa para o mandato do Presidente. Neste momento, Marcelo prefere tentar ter sob o chapéu de Belém o governo e o líder da oposição para controlar melhor o que por aí vem. Mas deve sentir, de quando em vez, algum daquele medo de que falava José Miguel Júdice.

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