Nada será igual, nem a coabitação

1 A tragédia do último fim de semana, 42 mortos, veio ampliar muito a que já tinha acontecido há quatro meses em Pedrógão Grande. As duas fizeram mais de cem mortos e prejuízos materiais e ambientais ainda incalculáveis. A de domingo, porque foi dispersa por quatro distritos, tornou mais transversal a sensação de insegurança em todo o país. Nada pode ficar igual, diz o primeiro-ministro, e vamos mesmo exigir que não fique. É agora responsabilidade do governo, dos autarcas e das comunidades não deixarem que fique tudo na mesma para que nunca mais se repitam cenários dantescos como os de junho e os deste outubro. As medidas que saírem do Conselho de Ministros de sábado, suportadas no relatório técnico sobre os incêndios de Pedrógão, têm de começar a ser aplicadas no dia seguinte e sem os rodriguinhos da esquerda e da direita, "ah e tal, temos de refletir sobre o que fazer". A certeza que temos já é que o atual modelo de proteção civil, de ordenamento do território, não funciona e tem de ser mudado de alto a baixo, a tempo para servir todas as estações, todos os meses do ano. É, como disse o Presidente da República, altura de pôr as mãos à obra, até por respeito por todos os que morreram, os que perderam tudo e pelos seus familiares.

2 Se tudo tem de mudar no país, Pedrógão e mais de 500 incêndios (os de domingo) já mudaram a política nacional. O Presidente da República manteve os afetos com o povo e endureceu, e muito mesmo, a relação com o governo e em particular o primeiro-ministro. Em direto para o país, Marcelo exigiu a cabeça da ministra da Administração Interna e Constança Urbano de Sousa caiu na madrugada a seguir. Marcelo e Costa trocaram mimos sobre desculpas e pesos na consciência. A coabitação entre Belém e São Bento será diferente, por muito que ambos disfarcem que está tudo igual. Até porque não convém a nenhum, neste momento, uma crise política mais profunda. Também está diferente a relação entre o Chefe do Estado e a esquerda, PCP e BE, a quem lembrou que se derem novamente a mão ao executivo, contra a moção de censura do CDS, serão parte integrante das soluções encontradas para o país, em vez de se colocarem à margem quando lhes convém. Na oposição, Assunção Cristas assumiu mesmo o comando e arrastou o PSD, em fase híbrida de mudança de liderança, para o apoio à sua moção de censura. Quem vier depois de Passos, Rui Rio ou Santana Lopes, tem de contar com tudo isto. E sobretudo com os consensos necessários para que o país mude de vida. Mesmo sem bloco central.

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