Mentiras e confiança

Sempre tive a ideia de que não é possível fazer política sem mentir. Bem sei que esta afirmação vai desencadear críticas acesas, mas é mesmo assim. Até na nossa vidinha, ainda pequeninos, mentimos para nos safarmos de castigos, mentimos para não dizermos o que realmente pensamos em vários momentos, mentimos por muitas e boas razões, a principal das quais pela necessidade de conviver com os outros. Quem disser que não mentiu alguma vez na vida que atire a primeira pedra.

Já não vou às promessas eleitorais que são feitas sabendo à partida que não poderão ser cumpridas, como a clássica de não subir impostos, para ganhar eleições. Basta pegar em exemplos bem mais recentes para perceber que os políticos dizem o que é preciso no momento para se defenderem das contrariedades ou para dourarem as pílulas amargas. Com os juros da dívida portuguesa a subirem acima dos míticos 4% é ver os responsáveis políticos a mostrarem-se convictos de que a perigosa oscilação é nuvem passageira - ainda ontem na emissão a cinco e sete anos os juros foram os mais altos desde a saída da troika, mas governo e Presidente da República manifestaram-se muito satisfeitos com a operação. Ou, quando as instituições europeias e internacionais dizem que a nossa banca ainda corre riscos, há um coro a nível nacional que se levanta contra os que lá fora não percebem nada do nosso sistema financeiro, quando sabem que até percebem bem demais. Essas são as mentiras vulgares na política e servem para contrariar o pessimismo externo.

Mas há outras que não são aceitáveis de todo. Ontem tornou-se pública um outro tipo de mentira e até tem a ver com o delicado sistema bancário, no caso a Caixa Geral de Depósitos. Afinal, sempre havia e-mails e uma carta, que parecem provar que o ministro das Finanças se comprometeu com o ex-presidente da CGD António Domingues para os novos administradores do banco público não declararem património e rendimentos ao Tribunal Constitucional. No Parlamento, em novembro passado, os deputados apertaram Mário Centeno com a fatídica pergunta sobre a existência do acordo. O ministro deu a entender que não existia. O secretário de Estado das Finanças, Mourinho Félix, desmentiu-o publicamente. O resultado deste processo foi mau para a CGD, como se sabe. A confirmar-se que os responsáveis das Finanças faltaram à verdade apenas para se protegerem, em vez de se preocuparem em proteger o banco público, é daquelas mentiras que num país mais rigoroso dava direito a mais umas demissões.

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