Marcelo e o desafeto

Quem esperava apenas um Presidente muito beijoqueiro, muito afoito à selfie e às inaugurações, muito congregador de entusiasmos, enganou-se. Marcelo quer consensos políticos, apoia o governo de Costa, mas quer ter uma palavra em todas as decisões com as quais não concorda. E até naquelas em que concorda. É Marcelo. Mas fará sempre tudo com muito afeto."

Escrevi isto em junho de 2016. Enganei-me no "sempre tudo com muito afeto". A nota que o Presidente redigiu sobre as explicações do ministro das Finanças sobre a polémica da CGD é todo um tratado de desafeto a Mário Centeno. Preto no branco, Marcelo diz que a confiança no ministro é do primeiro-ministro e que Belém só aceita essa posição "atendendo ao estrito interesse nacional em termos de estabilidade financeira".

O Presidente não tem de ter confiança no ministro. Não é ele que tutela o governo. É o primeiro-ministro. E por isso a fórmula do "aceitou" a posição de António Costa só faz sentido porque ele empenhou a sua confiança na confiança que lhe transmitiram, Costa e Centeno, sobre a polémica da CGD e que uns sms vieram estragar.

Marcelo sentiu-se traído, já o escrevemos nas páginas do jornal, depois de ter conhecido as mensagens trocadas entre Centeno e António Domingues porque o põem em xeque. Mas o Chefe do Estado também é vítima de si próprio. Se não tivesse vindo dizer que apoiava o ministro no meio da tormenta - o que não precisava de fazer e só o fez porque quer ter uma palavra em tudo o que acontece no país - podia passar mais ao largo da polémica. Ao ter falado sobre o assunto aumentou a dramatização em torno de uma questão que o governo não soube gerir a tempo. Tudo o que aconteceu entretanto - a espécie de mea culpa de Centeno e as notas de Costa a manifestar-lhe confiança e a do Presidente de desconfiança - só fragilizou o ministro das Finanças. O cheiro a enxofre intensificou-se lá para os lados do Terreiro do Paço e a pressão da oposição mantém-se.

Casa arrombada, trancas na porta, a nota do Presidente da República, que tanto alvoroço causou entre os socialistas, serve também de aviso a António Costa. É ele que governa, com apoio à esquerda, mas precisa do apoio do Presidente como de pão para a boca para a estabilidade política. Há mesmo quem defenda, como António Vitorino, que é a primeira crise de coabitação. Que seja. Pôr em causa a confiança de Belém só gera desafeto e é mexer em fogo que arde sem se ver.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG