Histórias das vítimas dos incêndios sem censura

Saber tudo o que se passou nos incêndios de Pedrógão Grande também se faz das histórias de quem se cruzou com o fogo naquele dia trágico de junho. Identificamo-nos com pessoas e não com números. Sabemos que morreram 65 pessoas e pouco sabemos delas - só o que alguns familiares conseguiram saber e quiseram partilhar - e as circunstâncias que as fizeram ficar encurraladas. Há um capítulo seis do estudo do professor Xavier Viegas, encomendado pelo Ministério da Administração Interna, que relata o que se passou com cada uma destas pessoas naquele dia. O governo considerou delicados os detalhes e pediu um parecer à Comissão Nacional de Proteção de Dados. A comissão vetou a divulgação integral desse capítulo, porque poderia expor as vítimas “num grau muito elevado”, violando o direito ao respeito pela vida privada dos envolvidos. O governo acatou a deliberação da comissão, como tinha de ser. Só deu a conhecer parte desse capítulo. Xavier Viegas não gostou. Fez apelo ao termo censura para se manifestar contra o que tinha sido “alterado”, riscado, no relatório. O professor tem todo o direito de defender que o documento que produziu seja divulgado na íntegra, mas produz ruído desnecessário com esta ideia de que o governo pretende omitir dados. A ideia que perpassa é a de que há algo a esconder para não dar maior dimensão ao que pela sua natureza já é tão mau. E é verdade que divulgar os detalhes sobre Pedrógão Grande agiganta tudo o que se passou. Mas também é verdade que aquelas pessoas e as suas famílias - a quem foi disponibilizada a informação sobre o aconteceu com o(s) respetivo(s) familiares - têm o direito à reserva. É um terreno delicado este que oscila entre a importância de conhecermos tudo o que se passou, para que se exija coletivamente que nunca mais se repita, e os direitos individuais de todos os que estiveram e estão envolvidos nesta tragédia. A Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão estava a tentar obter o acordo das famílias para que o capítulo seis fosse tornado público. A acontecer, da soma das partes ter-se-ia o retrato doloroso do todo. Xavier Viegas argumenta que as “imagens” daquele dia ajudam a evitar acidentes semelhantes. E, mesmo antes das famílias decidirem, o professor vai revelar os dados da investigação. Há uma mãe, Nádia Piazza, e que é presidente da associação de vítimas, que já contou como o filho de 5 anos morreu ao colo do pai na estrada EN 236-1. Fez-nos sofrer. Se outros como ela quisessem podíamos conhecer as histórias. Os jornalistas seriam livres de as relatar. E não há governo ou comissão de proteção de dados que impeça isso, como a PIDE fez com a tragédia das cheias de 1967. Xavier Viegas pode ser rigoroso com os dados, mas é manifestamente exagerado nas comparações.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG