Há antídotos para o populismo

Há muita gente que acha já que não vale a pena comemorar o 25 de Abril. Passados 43 anos, a democracia criou raízes e só franjas muito bafientas ainda suspiram pelo bem que viviam no anterior regime.

O Presidente da República, num discurso apaziguador das tensões políticas nacionais, fez questão de salientar que, por muito que passem décadas sobre a revolução, nunca é de mais lembrar como é bom viver em liberdade. E sobretudo fazê-lo na Casa da Democracia, que é o Parlamento, onde a data ganha todo um outro simbolismo.

Mais do que falar sobre os problemas nacionais - à exceção de pedir mais crescimento e de apelar ao combate contra a pobreza -, Marcelo refrescou a memória dos políticos sobre as causas do crescimento dos populismos, um dos grandes problemas com que as democracias ocidentais - e em particular a França - se confrontam: "O populismo alimenta-se das deficiências do poder político." Nem mais. As "injustiças", as "incompetências" e as "irresponsabilidades" dos representantes dos cidadãos são lenha que alimenta o fogo farto dos amigos oportunistas do povo.

Na sessão solene do 25 de Abril houve clareiras no hemiciclo. Cadeiras vazias. Várias. Onde estiveram esses senhores deputados? O que os levou a faltar à obrigação de estarem no Parlamento a representar os cidadãos que os elegeram e precisamente no dia mais simbólico para o fazerem?

Só razões muito ponderosas podiam ter afastado qualquer deputado da Assembleia da República neste dia, qualquer outra justificação entrará na classificação da "irresponsabilidade" de que falou o Presidente da República. As cadeiras vazias do Parlamento ajudam a perpetuar a ideia de que há muitos boys dos partidos a ocuparem demasiados lugares na Assembleia da República. E alguns deles nem sequer saberão honrar o mandato que lhes caiu na sopa depois de terem sido eleitos no molho das listas de candidatos.

Não há fenómenos populistas com expressão em Portugal, mas ninguém pode jurar que não venham a aparecer, como acontece noutros países europeus. E mais de 40 anos após o 25 de Abril também já era tempo de as forças partidárias perderem o medo e reformarem o sistema político. Um sistema que seja mais próximo dos cidadãos, que têm todo o direito a conhecer quem elegem e a pedir contas sempre que os seus representantes se mostrem incompetentes e irresponsáveis. Agora na amálgama ninguém é chamado à pedra por nada e todos apanham por tabela. Como diz Marcelo, há antídotos para o populismo, mas é preciso que sejam pensados.

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