Que televisão teremos em 2016?

Tal como na vida, também na televisão a ideia de "ano novo, vida nova" é apenas uma convenção. É verdade que as empresas de media entram em janeiro com um novo orçamento para executar (regra geral mais magro), mas a televisão, tal como a consumimos nestes dias e como ela é produzida e distribuída, está a montante e a jusante da ideia clássica de canais.

Não é, aliás, uma realidade de hoje, mas tem vindo a acentuar-se vertiginosamente e esse facto, sendo bom para cada um de nós, consumidores, tem-se revelado uma dor de cabeça para os clássicos produtores de conteúdos que registam, ou um notório decréscimo de receitas, ou um decréscimo de notoriedade com a pulverização das mensagens. Assim tem sido e assim será.

Lamentavelmente, Portugal é um país pequeno e as cabeças não são maiores. Mesmo onde poderia surgir alguma inovação e potencial lucro - o cabo -, verifica-se que há anos está instalada uma clique preguiçosa, cheia de si e da sua suposta graça. Generalizar é sempre perigoso, mas uma mão chega e sobra para contar, só no ano que passou, os projetos de rotura e/ou agregadores de públicos.

Tudo o resto é mais do mesmo e, sublinho, com muito pouco trabalho. Vens-aqui-ao--meu-programa-que-é-muita-fixe-e-depois-eu-vou-ao-teu-e-digo-que-tu-também-és-bué-criativo-pá!

Muitos destes "talentos" já estão hoje nos canais generalistas. Ora é preciso quebrar este ciclo - o cabo, e por extensão a web TV, é o território ideal para o fazer - porque, noutra escala, este amiguismo faz lembrar a velha TV aberta onde, faça-se justiça, há realmente vedetas e algumas delas - Cristina Ferreira (sobretudo), Manuel Luís Goucha, Catarina Furtado ou Daniel Oliveira - entenderam os novos tempos. A TV aberta é, pelo seu impacto, a única verdadeira fábrica de vedetas global. Tal como criara, por exemplo, João Manzarra há uns anos deu agora outra dimensão a Vasco Palmeirim, um indiscutível talento que já vinha da rádio.

Os portugueses, de todas as gerações, vão continuar a ver muita televisão. Não no clássico televisor da sala, porque essa é uma ideia anacrónica. Fenómenos como o Netflix e aparentados, o consumo em time shift (que vai ser medido), o consumo online, por junto ou partilhado nas redes sociais, todas essas realidades vão continuar a crescer. É fatal como o destino.

A TV generalista continuará a ser o grande ponto de encontro em momentos, por exemplo, de tragédia ou comunhão: No Europeu de futebol, os jogos da seleção serão vistos em direto por milhões de portugueses mesmo que a análise, antes e depois, tenha um acompanhamento fragmentado. O meu comentador é melhor do que o teu. Se for entre clubes, o meu grita mais do que o teu. Valentes!

A velha televisão será ainda importante, mas menos, nas notícias das oito que tendem para o magazine e, claro, na ficção para a qual vai fazer convergir grande parte do investimento.

Nesse sentido é com olhar crítico que deve ser seguida a opção da RTP, que, numa decisão estrategicamente com sentido, escolheu outro caminho abandonando as novelas, mesmo disfarçadas de séries longas. Era o que tinham pedido à anterior equipa. Cada cabeça, sua sentença!

Já o entretenimento conhecerá um ano de estagnação. Os grandes formatos custam muito dinheiro a produzir e o retorno tem sido pouco. Talvez porque têm sido produzidos de forma pobre e não há milagres. É preciso repensar tudo e olhar para mercados de dimensão semelhante ao nosso que são pujantes e rentáveis.

2016 não será, finalmente, um ano fácil para os profissionais do setor porque as empresas tenderão a manter a máxima de fazer mais com menos. Cada vez mais com cada vez menos.

Uma retoma económica, em que o governo aposta, pode infletir este estado de coisas. Seria bom para todos.

Nota final: Com este texto chega ao fim, por razões profissionais e pessoais, este ciclo de crónicas no DN. Agradeço ao João Marcelino, que me convidou, e ao André Macedo, o atual diretor, que reiterou a sua confiança. E, claro, ao Nuno Azinheira, que sempre liderou esta área. O Diário de Notícias é um jornal centenário e é uma honra fazer parte, por pouco tempo que seja, da vida de uma instituição.

Bom ano!

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG