A RTP e a terapia de choque

Fez agora um ano que escrevi nas páginas da Notícias TV, a revista que acompanhava o Diário de Notícias, uma crónica a que chamei "RTP - Uma Nova Teoria de Choque". O texto exprimia a minha visão sobre a necessidade de a RTP se reposicionar porque, nesse momento, as sombras em torno do futuro da empresa eram imensas e uma parte resultava da indefinição do poder político, ainda que me parecesse - como me parece hoje - elogiável o esforço do então ministro Miguel Poiares Maduro para retirar o governo do circuito.

Em novembro de 2014, a RTP era uma empresa que querendo parecer sólida estava à deriva, com um contrato de concessão com o Estado por assinar, com um Conselho Geral Independente cujo papel não estava claro, já com a discussão da Liga dos Campeões na mesa e com uma programação que se pedia distintiva mas que tinha de ser ao mesmo tempo concorrencial, na tradicional quadratura do círculo. Um ano depois, com outra equipa, houve uma terapia de choque? A resposta é não. Mas há um caminho iniciado que é sobretudo visível nas decisões ao nível da gestão e menos ao nível dos conteúdos. Esse facto não pode deixar de ser assinalado.

A RTP, por exemplo, fez um acordo com um sindicato bancário, renegociou internamente com os sindicatos, o que trouxe paz à empresa, fechou um novo acordo com a PT e tem-se mostrado um elemento regulador e pacificador do mercado.

Na oferta de conteúdos, o quadro é pior, mesmo que o ponto de partida esteja certo: a RTP não é um canal, ou sequer um conjunto de canais, é uma plataforma de distribuição de conteúdos. O que se constata é que na RTP1, onde estará concentrado talvez 80% do orçamento de conteúdos, o que há de novo não é bom e o que é bom não é novo, o que não pode deixar de ser elemento de reflexão. O arrojo estético e conceptual tem vindo de projetos importantes mas menores, como a RTP Memória ou a Antena 3. A própria RTP2, num tempo que já não é o seu, cumpre um papel alternativo, trazendo produções europeias, como o extraordinário Borgen, que de outra forma nunca veríamos em Portugal.

Com a chegada de um novo governo - e não vale a pena pensar que isso não tem qualquer importância - alguma coisa mudará? Esperemos que no essencial não, embora goste conceptualmente de ver a RTP como parte da Cultura e ache João Soares uma das melhores escolhas de António Costa. A RTP necessita de estabilidade, tem uma equipa a funcionar com um plano definido. O PS, que no domínio dos media não é melhor do que o PSD, deu em 2005 com a chegada do governo Sócrates um bom exemplo ao não mexer no que estava a andar. É assim que deve ser.

The Voice +

O The Voice é hoje o maior formato de entretenimento à escala planetária. É de tal forma disputado que em Inglaterra e após uma espécie de leilão a BBC acaba de o perder para a ITV. Acredito que a TVI ou a SIC não desdenhassem de ter o programa em mãos no momento em que ele brilha na RTP com um painel de magníficos jurados, bons concorrentes, boa dupla de apresentadores e até uma surpreendente repórter. O The Voice Portugal está bem pensado e muito bem editado, mesmo com uma tónica excessiva no drama humano.

E o país real? -

Os talk shows das manhãs e das tardes da nossa TV generalista estão cheios de temáticas e protagonistas que nada têm a ver com o público-alvo daqueles horários. Se querem ver o que é o país real, ele está nas reportagens dos Telejornais e todos os domingos em direto na TVI e na SIC. Mas durante a semana, e com exceções, como é evidente, os editores em Lisboa querem programas cool, com likes no Facebook e contas no Instagram. Preguiçosos ou simplesmente ignorantes, socorrem-se do que está mais à mão. Depois admiram-se que as donas de casa da Beira Baixa não os percebam.

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