2015. O ano na informação

2015 foi um ano trepidante em termos informativos e as redações dos diferentes canais responderam à altura aos vários acontecimentos. Melhor na frente interna do que nas grandes questões - e não apenas nas tragédias - à escala planetária em que a falta de recursos, e por vezes a falta de visão estratégica, constituem velhos e incorrigíveis pecados.

Num ano em que, sem exceção, todas as estações perderam profissionais experientes, a qualidade média do jornalismo não se terá ressentido aos olhos do espectador comum embora seja recorrente uma acentuada tendência para o aumento do peso do entretenimento, dos fait-divers em geral, das notícias cool e ainda das que se "tornaram virais", a maioria delas sem verdadeira relevância e importadas para os alinhamentos dos noticiários porque rodam nos feeds de Facebook e nos grupos de Whatsapp de quem toma as decisões. Melhor seria que os decisores cool lessem outras coisas mais estimulantes e importantes, certamente com mais impacto junto dos públicos e que, afinal, também estão disponíveis na net. Mas isso implica estudo e não sobra grande tempo entre tamanho frenesim.

A CMTV, que dentro de dias entra na plataforma da NOS, foi a confirmação do ano. Destacou-se pela rapidez e a capacidade de resposta - são coisas diferentes - e ainda pelo sentido apurado da lógica breaking news. Em alguns temas, em particular no caso Sócrates, tomou furiosamente partido assumindo uma cruzada que vai acabar mal para uma das partes e não é esse o papel do jornalismo. Ainda assim é preciso dizer que hoje o canal é diferente e marca a diferença, tudo o que precisava quando começou.

A TVI, debaixo de fogo nas últimas semanas, teve um ano pujante. Liderou em canal aberto, cresceu no cabo onde chegou a ameaçar seriamente a SIC Notícias e mostrou iniciativa, designadamente no longo processo pré e pós--eleitoral. Também geriu bem a perda de Marcelo Rebelo de Sousa que, usando uma imagem futebolística que o próprio não desdenhará, teve o mesmo impacto que um dia terá o final de carreira de Cristiano Ronaldo. Uma parte desse movimento tem de ser creditado a Sérgio Figueiredo que, regressado ao jornalismo, não vinha com o discurso do desgraçadinho e meteu mãos à obra. Fez o que tinha de fazer, mas fez bem.

A SIC manteve o seu bom registo, embora sem ganhar entre os generalistas. No cabo reagiu muito bem nos últimos meses, após uma perigosa letargia. É uma marca poderosa como se viu em todos os momentos-chave do ano. Agora vai enfrentar a entrada em cena da CMTV. Imaginar que está derrotada será um erro.

Finalmente a RTP regressou a uma certa sobriedade e respeitabilidade que devem ser registadas, embora lhe falte brilho e iniciativa. A informação é a área em que verdadeiramente o serviço público pode fazer a diferença. A RTP3 foi uma mudança, para melhor, face à manta de retalhos em que se tinha transformado a RTP Informação. O canal tem uma estética elegante e sofisticada, programas interessantes mas, exceção feita às entrevistas de Vítor Gonçalves, mostra-se incapaz de marcar a agenda. Nesse sentido perde para a concorrência. Perde em agressividade e sentido da notícia para a CMTV, perde nos opinion makers e nos espaços de análise em geral para a SIC Notícias e a TVI24.

Apesar da melhoria gráfica e plástica assinalada na RTP, um dos problemas crónicos da televisão portuguesa, no domínio da informação, é a escassez de ferramentas tecnológicas. Hoje os canais, com um ou outro momento de fulgor visual, continuam a fazer-se com quatro pessoas - ou menos - sentadas à volta de uma mesa, normalmente a mesma de manhã à noite. Isto numa altura em que existem recursos que, dirão alguns, são peças de informação-espetáculo, mas que na verdade são instrumentos de enquadramento e compreensão das notícias e reportagens.

Uma palavra final justamente para os repórteres: já tivemos melhores anos e melhores ideias, mas continua a existir na televisão portuguesa uma boa escola de reportagem que valoriza e muito a oferta informativa.

Numa TV genericamente pobre e falha de ideias a informação é não só o porto mais seguro como é aquele onde a qualidade média mantém um patamar mais elevado.

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