Sou de Belém desde pequenino

Lembro-me bem da primeira vez que o meu pai nos levou, a mim e aos meus irmãos, a provar os pastéis. Do balcão trouxe uma caixa que devorámos assim que nos sentámos nos bancos do jardim. Eram estaladiços e ainda vinham quentes. "É uma receita muito antiga que pouca gente conhece", contava-nos. Por um instante, ficámos admirados a olhá-los antes da segunda e última trinca.

Aquela foi uma das primeiras visitas culturais às origens, numa altura em que vivíamos no Algarve. Da visita às galerias do Centro Cultural de Belém à passagem pelo Hospital de São Francisco Xavier. "Foi ali que nasceram", apontou enquanto conduzia. Lembro-me de olhar, curioso, a imaginar como a partir dali comecei a descobrir o mundo. Aliás, arrisco dizer que foi a minha primeira viagem.

Havia de voltar aos jardins muitas outras vezes, já mais crescido, durante visitas de estudo - grande parte do tempo passadas na A2, a ir e vir no mesmo dia. Uma parte de mim sentia que pertencia ali - como não? Os autocarros estacionavam todos em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Havia tempo para jogos de futebol nos relvados, palhaçadas, grupinhos e partilhar comida que trazíamos nas lancheiras. Depois a tarde era passada em museus ou a assistir a peças de teatro e, já bem no final do dia, se sobrasse tempo, passávamos num shopping para ver lojas que não conhecíamos e roupa que não podíamos comprar.

Quando atingi a maioridade, decidi fazer a minha primeira grande viagem. Tinha trabalhado no verão e juntei dinheiro suficiente para me aventurar pela Europa, entre comboios, com mais um amigo. Já no país da pasta, esperava-nos mais uma noite sem alojamento digno. Estávamos no centro de Verona e queríamos seguir para a Áustria. Só havia ligação de madrugada, mas não éramos os únicos a fazer tempo no McDonald's mais central. Outro grupo de mochila às costas aproximou-se e lançam: "São portugueses?" Começámos as apresentações, nomes e tal, "vivemos no Algarve e vocês?". Até que oiço: "Sou do Restelo!" E logo pensei: eu também, desde pequenino. A "sala de estar" encerrou e acabámos a dormir num corredor da estação. À hora dos comboios, despedimo-nos sem trocar contactos. E nunca mais nos vimos. Tenho de voltar a Belém.

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