Angelpe e Dmitri. Do Príncipe para Portugal em busca de um sonho

Nasceram numa ilha tropical quase perdida no Atlântico, onde o verde abunda, as praias têm palmeiras a rasgar a areia, a água é quente e come-se ao almoço o peixe que se pescou de manhã. Foi na ilha do Príncipe que conheci o Angelpe e o Dmitri, quando lá aterrei pela primeira vez para uma experiência de voluntariado com a associação Sonha, Faz e Acontece. Eles eram dois dos coordenadores locais que nos ajudaram a implementar atividades com foco na saúde e na educação: sabíamos que não iríamos mudar o mundo, mas íamos ajudar nem que fosse um bocadinho.

Fomos recebidos de braços abertos e íamos cheios de curiosidade por outra realidade. Os dois dividiam-se também a trabalhar na Secretaria Regional das Infraestruturas, dar aulas e o Angelpe à noite mantinha a sua quitanda aberta, na avenida principal da pequena capital de Santo António. Era ali, junto à igreja, que atrás do balcão vendia produtos de primeira necessidade a quem aparecia para conversar ou jogar matraquilhos. Sempre a sorrir. Nunca esconderam o sonho que tinham de completar um curso superior em Portugal e poderem regressar ao seu país com mais conhecimento - e serem uma mais-valia numa terra onde o tempo parou, mas a vida continua. Há três anos, os astros alinharam-se e puderam fazer as malas, cheia de receios e alguma roupa.

De Lisboa foram parar à nova casa, na Guarda, onde "faz muito frrrrio" e quando neva "fica tudo brrranco". Faltava-lhes muita coisa e para trás ficou a família, mas eles - mais do que ninguém - sabiam para o que ali estavam. Foram tendo ajuda de amigos, instituições locais e ao longo deste tempo arrependo-me de não termos estado mais vezes juntos, mesmo quando a distância de 4500 quilómetros se tenha reduzido para 300. Mas fomos jantar comida são-tomense, dançámos ao som de ritmos africanos e passeámos por pontos icónicos do país.

No verão, o ponto de encontro era no Algarve, onde se instalavam a trabalhar na hotelaria. Três anos depois sem voltarem ao Príncipe, sem estarem com as suas filhas e mulheres, o Angelpe concluiu a licenciatura em Engenharia Civil e está ansioso por conseguir um estágio profissional e, no próximo ano, poder ir a casa. O Dmitri formou-se em Engenharia Topográfica e neste momento está de férias na sua ilha. Dá um mergulho por todos. Parabéns aos dois!

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