A neta e o tempo

Vejo-a muitas vezes quando vou ao pátio regar as plantas ou aparar o maracujá. Cabelos brancos bem cuidados, as costas ainda direitas, uma voz doce mas sonora. A vizinha dá-me conselhos de jardinagem e gaba o jasmim, fala do tempo que vai fazendo e do tempo que já passou.

"Também tínhamos um maracujá assim, mas acabei por cortá-lo por causa das formigas. Quem gostava dele era a minha neta... já cá não mora, nem sei por onde anda..."

A história é curta e sempre a mesma, nem por isso causa menos impressão. A passagem do plural ao singular, a neta que pedia maracujás e agora não pede nada, perdida nas reticências. Eu sei que não foram as formigas que cortaram o maracujá e a vizinha também sabe.

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Pedro Lains

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