Os bonecos que vinham do frio

Os gelados da minha infância eram Olá ou Rajá. A Olá chegou aos dias de hoje, a Rajá ficou pelo caminho, mas naqueles anos sessenta o nome Rajá era sinónimo de gelado. "Queres um rajá?" podia querer dizer que íamos ganhar um Olá.

"Há frutóchocolate", diziam os vendedores de praia com as suas geleiras a tiracolo.

Não havia, como agora, muitas geladarias em Lisboa. Lembro-me só de duas, aliás, duas lojas da mesma casa - A Veneziana: uma na Avenida da Liberdade, junto ao Cinema São Jorge, uma cave com esplanada cá fora (já não está lá); e outra, mais abaixo, nos Restauradores, ao canto à direita, de quem desce a avenida (ainda lá está).

Eram para ocasiões especiais. Uma ida à Baixa, às compras, com a minha mãe ou com a minha irmã e, como prémio, um gelado de taça, com chantilly, n'A Veneziana. Gelado deluxe. Uma raridade só desfrutada de tempos a tempos.

No dia-a-dia dos verões da infância a disputa era pelos rajás e pelos olás. Mas não era só pelos gelados de laranja, ananás ou chocolate. Era sobretudo pelo brinde que eles traziam: dentro da embalagem de papel de cada gelado, um pequeno boneco de plástico monocolor. Havia várias coleções, quase sempre de séries de desenhos animados da televisão ou de bandas desenhadas da época. Os da Disney ou os da Warner Brothers, os do Astérix ou os do Tintin, ou outros que nem sei de onde eram, como os músicos de um grupo ié-ié ou os astronautas e os seres extraterrestres que pertenciam a um conjunto que incluía uma espetacular estação orbital, que era adquirida à parte.

Verão após verão, estes eram os bonecos que eu colecionava e que foram os meus mais usados e estimados brinquedos.

Vinham criogenizados nas embalagens de gelados e acordavam para um mundo onde viveriam novas e insuspeitadas vidas.

Com eles fiz equipas de futebol, consoante a cor da equipa, cada um era um jogador daquele tempo. O Eusébio era um astronauta encarnado. O José Henrique era o Speedy González, tinha um grande sombrero, tapava toda a baliza. Jogos com balizas de lego num tabuleiro de madeira com o campo desenhado a giz e uma minúscula bola de pão seco. Fiz campeonatos nacionais, taças dos campeões, taças das taças, mundiais de seleções - horas e horas de jogos, sozinho no meu quarto a relatar grandes vitórias nos estádios mais famosos do mundo. (O Benfica ganhava sempre, mas como não ganhar quando se tinha José Henrique, Artur, Humberto Coelho, Toni, Jaime Graça, Artur Jorge, Nené, Jordão, Eusébio, Simões, Vítor Baptista... e cada um deles era um boneco de gelado escolhido criteriosamente dos encarnados das várias coleções de acordo com as características dos jogadores? O Nené, por exemplo, um Peter Pan, sempre no sítio certo para marcar.)

Com os mesmos bonecos fazia os habitantes das incrivelmente mutáveis cidades de lego. Inventava-lhes histórias, percursos, aventuras.
Com eles, recriava os festivais da canção que via na RTP, imitando os cantores e as plateias que os aplaudiam.

Aqueles bonecos foram os meus companheiros de mil brincadeiras, eram uma materialização em plástico barato de todos os sonhos e de todas as histórias que eu tinha na cabeça.

Lembro-me muito bem do dia, do dia exato, em que me sentei para brincar com eles, para fazer mais um jogo de futebol com a bola de pão e de sentir que já não acreditava naquele faz de conta. Lembro-me de tentar ainda insistir e depois desistir. Lembro-me dessa sensação de uma ligação qualquer que se tinha perdido. Para sempre.

Pela primeira vez, o entusiasmo dera lugar a uma espécie de gelo, um gelo que não era o gelo refrescante dos gelados daqueles verões da nossa inocência.

Guardei-os numa caixa de sapatos e depositei-os no fundo de uma gaveta longínqua. Nunca me desfiz deles e ainda hoje os guardo no meu sótão, na mesma caixa de sapatos, com as peças de lego das balizas e meia dúzia de miniaturas de automóveis, únicos brinquedos que preservei daquele tempo.

Guardei-os para quê? Para iludir o abandono com a fantasia de uma hibernação, que será interrompida um dia em que uma criança os desperte de novo do seu sono convocando-os para os seus sonhos?

Brinquedos abandonados, nada é melhor ilustração para o fim da infância.

Aquele laço ficcional que estabelecemos com eles, aquele mecanismo de pôr os sonhos em funcionamento, perdemo-lo para sempre? Como é que o ativamos quando somos adultos?

Pela literatura, pela arte, pelo cinema?... Os nossos brinquedos de adultos passam a ser mais imateriais: fantasmas, sombras, imagens, linguagem...

O fetiche descola do brinquedo e move-se para outros mais obscuros objetos de desejo, outras mais inescrutáveis feitiçarias.

O insaciável desejo de ficção. Ver numa caixa de sapatos com uns bonecos inúteis uma gruta de Ali Babá com um tesouro perdido. A beleza está nos olhos do perscrutador.

Havia um jogo que os adultos faziam com as crianças quando escondiam uma prenda que lhes queriam dar e depois diziam-lhes para a procurar e davam pistas de acordo com o quão perto elas estavam de encontrar o presente: frio, gelado, frio, morno, quente, quente, a escaldar.

A vida é a história de um tesouro perdido. Se tivermos sorte e soubermos ouvir, temos pelo caminho quem nos vá dizendo, mais frio ou mais quente, se estamos mais longe ou mais perto de o voltar a encontrar. Ao contrário do jogo, a voz que em silêncio nos orienta é a nossa própria voz de criança.

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