Extremamente bem

É costume dizer que os extremos se tocam, não porque defendam o mesmo, mas porque defendem da mesma maneira, com a mesma convicção.

Os extremistas identificam-se pela forma extrema de serem, porventura mais decisiva do que o conteúdo do que defendem.

Amar muito, odiar muito - nunca percebi porque na história dos amores humanos se valorizou sempre muitíssimo mais o "amar muito", o amor desmedido, o amor extremo, em vez do amor harmonioso, em vez do "amar bem".

Dizer que um amor é equilibrado parece querer dizer que não é amor suficiente, que é amor pouco, que não é amor. Só é amor se for desequilibrado, excessivo, um amor que seja tudo ou nada.

Ao contrário do mito romântico, eu não quero que me amem mais que tudo, incondicionalmente, muito, muitíssimo. Eu quero que me amem bem. Com arte e engenho, extremamente bem.

O amor é sempre o enredo em que se enreda o desejo. Não é por acaso que chamamos romances aos amores. O que precisamos é de bons romances, boa literatura.

O melhor poema sobre as aventuras do desejo é uma canção do caetano Veloso, O Quereres: "Onde queres família, sou maluco/ E onde queres romântico, burguês/ Onde queres Leblon, sou Pernambuco/ E onde queres eunuco, garanhão/ Onde queres o sim e o não, talvez/ E onde vês, eu não vislumbro razão/ Onde queres o lobo, eu sou o irmão/ E onde queres cowboy, eu sou chinês/ Ah! bruta flor do querer/ Ah! bruta flor, bruta flor/ Onde queres o ato, eu sou o espírito/ E onde queres ternura, eu sou tesão/ Onde queres o livre, decassílabo/ E onde buscas o anjo, sou mulher/ Onde queres prazer, sou o que dói/ E onde queres tortura, mansidão/ Onde queres um lar, revolução/ E onde queres bandido, sou herói."

A bruta flor do querer é que perfuma a nossa existência na forma de encontros e desencontros, romances e canções.

Não é o que sentimos, é o que fazemos do nosso sentimento que conta. E conta muito. Deveria contar muito bem.

Não só no amor precisamos do bem mais do que do muito. Na nossa vida comunitária precisamos de desvalorizar os extremos.

Os extremistas são só pessoas que exacerbam excessivamente as suas causas. São sempre, por essa razão, populistas. Obscurecem o complexo presente com uma parcial parcela a que sempre claramente o reduzem.

Passam para lá da linha ténue que separa o apaixonado do fanático e no culto do seu fanatismo se isolam rodeados do seu séquito de ensurdecidos ensurdecedores.

Não há nada que mereça mais combate em democracia do que os fanatismos.

Contra os fanatismos marchar, marchar. Marchar não. Contra os fanatismos caminhar, caminhar.

Já era tempo de mudar o nosso hino nacional, bélico e desfasado do tempo. Devíamos ter um hino que nos fizesse dançar.

Lembro-me de António Alçada Baptista, personalidade singular, escritor de uma sábia suavidade irónica (deixou-nos um livro displicentemente revolucionário na forma de olhar os amores, Os Nós e os Laços). Uma vez, como comissário de um 10 de Junho de há umas décadas, disse no seu discurso que devíamos mudar a letra do hino por ser totalmente desadequada ao tempo presente. A sugestão causou ondas de indignação furiosa.

Nietzsche dizia "não acredito em um deus que não dance", eu acredito que um hino de união de uma comunidade devia ser um hino que se pudesse dançar, porque uma comunidade deve ser um lugar onde se pode dançar.

Dançar contra os fanatismos, sempre, dancemos no mundo.

E caminhar, caminhar, viajar. "Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas", dizia Mark Twain.

Errar pelo mundo, errar sempre, cada vez melhor.

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